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Como o estigma da menstruação afeta adolescentes
Perguntas e respostas com a Dra. Charis Chambers
Uma pesquisa recente conduzida pela PERIOD revelou que, embora o acesso a produtos menstruais gratuitos em espaços públicos e escolas tenha melhorado desde 2023, um número maior de adolescentes relata se sentir afetado por atitudes negativas em relação à menstruação. Quase 6 em cada 10 adolescentes (59%) afirmam que o estigma em torno da menstruação as afeta — um aumento de 14 pontos percentuais desde 2023. Isso sugere que, embora a educação sobre menstruação esteja se tornando mais comum nas salas de aula, ainda faltam conversas de apoio em outras partes da vida cotidiana dessas jovens.
O relatório também revelou que:
93% das adolescentes tiveram experiências negativas em esportes ou atividades extracurriculares devido aos sintomas do ciclo menstrual
3 em cada 5 garotas se preocupam com vazamentos ou manchas ao praticar esportes durante a menstruação
73% das adolescentes sentem pressão para “aguentar firme” em vez de falar sobre as dores menstruais
Cerca de 1 em cada 5 adolescentes se sente sem apoio dos treinadores ou é julgada durante a menstruação
Nesta sessão de perguntas e respostas, a Dra. Charis Chambers, diretora médica do Clue, explica por que o estigma persiste, como a menstruação afeta as adolescentes e maneiras simples pelas quais pais, mães ou tutores podem apoiar suas filhas e filhos.
1. O que pesquisas recentes revelam sobre o estigma da menstruação e como reduzi-lo entre as adolescentes?
Pesquisas recentes mostram que para eliminar o estigma da menstruação é necessária uma abordagem multifacetada em vários contextos. É importante fornecer acesso a produtos menstruais gratuitos nas escolas e em espaços públicos, mas isso não é suficiente. Devemos continuar a trabalhar com treinadores, professores, pais, empregadores e formuladores de políticas para abordar o estigma. No entanto, não basta apenas conversar sobre menstruação. A verdadeira mudança vem de ações e políticas intencionais que apoiem as adolescentes em todas as áreas de suas vidas.
2. Por que as adolescentes ainda enfrentam esse estigma, mesmo com produtos menstruais gratuitos disponíveis?
Os produtos menstruais gratuitos melhoram o acesso, mas não abordam as causas mais profundas do estigma menstrual. O estigma está enraizado em crenças culturais de longa data, silêncio e vergonha em torno da menstruação — e essas atitudes afetam qualquer pessoa que tenha ou venha a ter a menstruação.
Mesmo quando os produtos estão disponíveis, muitas adolescentes ainda se sentem envergonhadas de falar sobre o tema, pedir ajuda ou lidar com os sintomas abertamente. Isso ocorre porque o estigma é reforçado por normas sociais, lacunas na educação e pela maneira como a menstruação é discutida (ou evitada) em casa, nas escolas e na mídia — muitas vezes ao longo de gerações.
Desmantelar o estigma requer reconhecimento, discussão e ação intencional em todas essas áreas. Também é necessária uma abordagem intergeracional. Pessoalmente, acredito que as mães e os pais são os agentes de mudança perfeitos para a questão do estigma menstrual. E ainda há muito trabalho a ser feito para criar um mundo onde a menstruação seja compreendida, apoiada e livre de estigma.
3. Por que o estigma da menstruação é especialmente comum nos esportes e no atletismo?
O estigma da menstruação é comum nos esportes porque essas áreas costumam ser altamente competitivas, fisicamente extenuantes e mentalmente desgastantes. A menstruação e as experiências relacionadas a ela, como fadiga, irritabilidade, cólicas, alterações de humor e dores de cabeça, geralmente não são úteis ou vantajosas para a maioria dos atletas. Portanto, a menstruação pode acabar sendo vista como uma desvantagem nessas situações.
É fundamental educar treinadores, preparadores físicos e pais e mães sobre como apoiar melhor as atletas durante a menstruação. Com a orientação certa, as atletas podem lidar com a menstruação de uma forma que apoie tanto o desempenho quanto a saúde e o bem-estar geral.
4. Por que as adolescentes negras e não brancas podem sofrer mais estigma menstrual?
As adolescentes negras e não brancas podem sofrer mais estigma menstrual porque a vergonha tende a se concentrar em comunidades e espaços com menos acesso ao poder e aos recursos convencionais. Infelizmente, adolescentes afrodescendentes e não brancas tendem a ser mais propensos a sofrer estressores sociais como discriminação, bullying, hipersexualização e adultificação. Isso pode intensificar os sentimentos de vergonha e constrangimento em relação à menstruação.
A pobreza menstrual pode agravar esses desafios; o efeito cumulativo é uma sensação mais pronunciada de vergonha, estigma e constrangimento em relação à menstruação. Isso se manifesta em tabus culturais e equívocos que podem afetar tudo, desde produtos menstruais até o gerenciamento dos sintomas menstruais.
Na minha experiência, descobri que as adolescentes negras e não brancas podem estar mais abertas a conversas sobre menstruação do que algumas das gerações mais velhas ao seu redor. Elas querem educação, opções e orientação, enquanto sua família ou comunidade podem ainda não estar preparadas para isso.
5. Quais são os sintomas comuns da menstruação?
Os sintomas comuns da menstruação podem variar de pessoa para pessoa. Compreender esses sintomas pode ajudar as adolescentes e os pais a reconhecer o que é normal e quando procurar ajuda.
Os sintomas comuns incluem:
Cólicas
Dores de cabeça
Fadiga
Irritabilidade
Náusea
Diarreia
Dor nas costas
6. Quais são os sinais de que a dor menstrual pode indicar uma condição mais grave, como endometriose, miomas uterinos ou doença inflamatória pélvica?
Os sinais de que a dor menstrual pode indicar uma condição mais grave incluem qualquer um dos seguintes:
Dor que não responde a analgésicos de venda livre
Dor que piora repentinamente e causa náusea ou vômito
Dor que impede você de realizar suas atividades diárias
Dor que impede você de frequentar a escola ou o trabalho
7. Como mães, pais ou responsáveis podem saber se a dor menstrual sinaliza um problema maior?
Se familiares ou responsáveis estiverem preocupados com a dor menstrual de suas adolescentes, o primeiro passo é oferecer conforto e apoio. Também sugiro monitorar a dor e os sintomas associados em um aplicativo, como o Clue, que pode ajudar a criar um registro claro das experiências ao longo do tempo. Essas informações podem então ser compartilhadas com um profissional de saúde qualificado que esteja familiarizado com o tratamento da dor menstrual em adolescentes.
Para dores intensas e repentinas, é necessária uma avaliação médica de emergência.
8. Quais são as três principais maneiras pelas quais mães e pais podem apoiar adolescentes durante a menstruação — especialmente na escola e em atividades, como esportes — e por que você recomenda cada abordagem?
Aqui estão minhas principais dicas sobre como os pais podem apoiar suas adolescentes durante a menstruação:
Inicie conversas desde cedo
Quando se trata da menstruação — e da puberdade de forma mais ampla — muitos familiares adotam uma abordagem reativa, esperando para conversar sobre o que está acontecendo até que isso ocorra. Embora isso possa parecer mais fácil, muitas vezes tem o efeito contrário. Quase metade das pessoas que menstruam não sabem o que está acontecendo quando têm a primeira menstruação, e a falta de preparação está associada a maior estresse, menor confiança e aumento da vergonha.
Iniciar conversas sobre a puberdade e a menstruação mais cedo pode ajudar a reestruturá-las como algo normal e gerenciável, em vez de confuso ou inconveniente. Conversas precoces e adequadas à idade também apoiam a comunicação aberta, tornando mais fácil para as crianças fazerem perguntas e obterem apoio quando necessário.
Verifique sua bagagem
Muitos pais carregam suas próprias dores, lutas e traumas relacionados à menstruação e à puberdade. Para aqueles que menstruam, alguns lutaram contra dores debilitantes, mudanças de humor isolantes ou padrões de sangramento terríveis. Para aqueles que não menstruam, eles podem ter aprendido comportamentos negativos em relação às pessoas que menstruam ou nunca aprenderam como oferecer apoio saudável a alguém que está menstruando. Quando percebem que suas filhas podem estar prestes a começar a menstruar, podem se preocupar e até mesmo projetar suas próprias experiências nelas. Já vi mães com endometriose exigirem que suas filhas suportassem a dor. E já vi pais basicamente abandonarem suas filhas no início da puberdade, inseguros ou incapazes de apoiá-las como elas precisavam.
Como pais, é nosso dever lidar com nossas experiências passadas de forma a podermos apoiar nossas filhas e filhos em todas as fases de suas vidas. Antes que sua filha ou filho chegue à puberdade, faça o trabalho necessário para curar experiências passadas negativas e desaprender crenças e práticas prejudiciais. Não é fácil, mas vale a pena o esforço para evitar transmitir feridas e danos geracionais.
Busque recursos confiáveis
Há muitas informações disponíveis e ainda mais desinformação. Os familiares modernos devem ser especialmente criteriosos ao selecionar recursos para o aprendizado e a educação sobre a menstruação. Enquanto você trabalha para educar sua filha sobre a menstruação e prepará-la para lidar com as mudanças em seu corpo, as informações e orientações que você compartilha devem ser precisas e adequadas. Recursos como profissionais de saúde qualificados, sites confiáveis e livros confiáveis são bons para aprender o básico sobre o fluxo menstrual, dores normais e anormais, práticas de higiene adequadas e até mesmo opções adequadas de alívio da dor.
Você não precisa ser especialista em anatomia, menstruação ou saúde, mas precisa saber como identificar os especialistas e seguir seus conselhos.
Principais conclusões
Apoiar as adolescentes durante a menstruação vai além das conversas na escola — requer uma abordagem proativa e intergeracional. Ao compreender o impacto do estigma e oferecer apoio consistente, mães, pais e cuidadores podem ajudar as adolescentes a lidar com a menstruação com confiança e resiliência.
