Foto em que a autora Aubrey Bryan aparece sorrindo.

Foto: Franz Grünewald. Direção de Arte: Marta Pucci

LGBTQIA+

Como usar o Clue app me ajudou a aceitar minha identidade não-binária

A linguagem neutra de gênero é mais importante do que você imagina.

*Tradução: Jade Augusto Gola

Quando você está saindo do armário, há um sentimento de luto para algumas pessoas*. Eu cresci numa típica casa do subúrbio heteronormativo americano e me via como a típica garota heterossexual. Ao longo da minha adolescência, eu me apaixonei por garotos, me desviava de perguntas de parentes sobre namorados e tinha como sonho um casamento futuro que parecia até demais com o dos meus pais.

(*Eu reconheço que digo isso com imenso privilégio. Para muita gente, sair do armário traz desafios muito mais gigantescos.)

Então quando chegou o momento de eu reconhecer minha identidade queer, isso veio com um senso de perda, ao perceber que eu nunca poderia responder as perguntas de "namoradinho" dos meus parentes da maneira que eles esperavam; eu nunca ia ter o casamento que cresci imaginando. Eu cumpri o luto para esse futuro que eu tinha sonhado pra mim, e redirecionei minha imaginação para um novo.

Ao ir assimilando minha identidade queer, notei que perdi algo que eu não imaginava que ia perder: o consolo de ter aquela Conversinha Superficial de Garotas.

Lembro de estar um dia tomando uma cerveja com dois amigos héteros, e entre goles durante uma úmida tarde da Filadélfia a conversa foi parar em tópicos que eu não tinha mais acesso: romance e sexo. Ainda muito jovem na minha identidade queer para discutir detalhes de minhas paqueras, eu me senti de fora da conversa. Eu ouvia e balançava a cabeça positivamente durante todo o papo.

Ao seguir tendo que enfrentar conversas intimidantes com meus amigos cis héteros, notei que eu me apoiava muito ainda num ritual que eu nunca perderia: reclamar sobre a menstruação.

Minha menstruação chegou bem tarde durante o ensino médio, então quando eu pude participar desta festa eu já tinha perdido anos desses rituais. Os lamentos e reclamações coletivos sobre cólicas, sobre absorventes que escorregam, as comparações entre sintomas: tudo era um ritual de passagem, uma linguagem secreta, um espaço onde podíamos quebrar barreiras sociais e falar intimamente sobre nossos corpos, criando confiança com outras pessoas menstruantes ao discutir estes assuntos que, para pessoas de fora, eram um tabu.

Levou um longo tempo até eu perceber como eu me agarrava ao conforto dessas ligações e como—sem perceber—minha relação com a menstruação era o que me fazia ter a sensação de ser uma mulher.

Como uma pessoa queer, e como alguém que faz o melhor para praticar o feminismo interseccional (tipo de feminismo que reconhece que, para tratar de uma opressão, temos que levar em conta outras formas opressoras), vejo agora como esse meu pensamento era limitado. Eu sabia, a princípio, que nem todas as mulheres menstruam, e que nem todas as pessoas que menstruam são mulheres. Mas naquela época eu não tinha muita gente trans* e não-binária na minha vida, e afora isso eu nunca tinha pensado em aplicar esses pensamentos sobre inclusividade em minha própria vida.

Quando ouvi falar do Clue, me impressionei com a inclusividade e como se declarava publicamente que era um app para qualquer pessoa que menstruasse. Eu comecei a monitorar minha menstruação, e eventualmente me candidatei e acabei indo trabalhar no Clue.

Quanto mais eu registrava no app, mais a minha mentalidade evoluía. Ao desviar-se da ideia de que o ciclo menstrual tinha um gênero explícito, eu pude me libertar da relação entre minha menstruação e meu gênero.

Imagem de três telas mostrando o aplicativo Clue

O Clue usa linguagem neutra de gênero para ajudar você a monitorar sua saúde menstrual

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4.8

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O podcast do Clue em inglês, intitulado "Hormonal", tem um episódio chamado "A TPM é real. A TPM não é real", que faz uma boa reflexão sobre a conexão entre TPM e as expectativas e estereótipos da sociedade. Eu costumava pensar que os piores sintomas da minha TPM eram as variações de humor; eu dizia o tempo todo às pessoas que sempre um dia antes da minha menstruação eu choraria e sentiria raiva e irracionalidade. Eu sentia até certo orgulho em ser alguém que lidava com esses sintomas estereotipados de "mulher".

Depois de monitorar minha menstruação por vários meses eu parei de vivenciar esses padrões de "flutuações de humor", e o que eu vejo agora é como eu usava o ponto de vista da sociedade sobre a maneira como as mulheres vivem a TPM, para explicar o que na verdade eram complexas e reais emoções que eu sentia.

Monitorando no Clue eu comecei a ver a minha menstruação e os sintomas não como significados do meu gênero, mas sim como uma maneira com que meu corpo se comunicava comigo, dizendo em que parte do ciclo eu estava a cada momento. Ciclos hormonais que cada pessoa experimenta, não importando o gênero (atribuído ou não).

Com esse novo entendimento, os derradeiros laços com meu gênero se romperam. Eu também me vi junto de uma orgulhosa comunidade, em uma cidade diversa e de mente aberta, e logo me senti livre para explorar as fronteiras finais da minha identidade queer. E eu podia fazê-lo sem sentir que eu ia perder algo. Esse é o poder que a linguagem tem.

Infelizmente, a linguagem de gênero neutra sobre a menstruação pode e costuma criar tensão. Quando a linguagem evolui, ocorre com frequência o caso de alguém sentir empoderamento com as mudanças, enquanto outros sentem que algo está sendo tirado de si. Pode ser desconfortável sentir-se para trás ou que você pode ofender alguém usando uma frase antiquada.

Temos visto na língua inglesa uma grande mudança na direção de assimilarmos termos mais amplos, de gênero neutro. Por exemplo 'Latinx', uma versão sem gênero de Latina/o; o famoso dicionário Merriam-Webster deu o título de palavra do ano em 2019 para "they" ("eles"—em inglês esta declinação não tem gênero e tem sido usada em substituição a him/she—ele/ela). Embora possa levar algum tempo até nos adaptarmos, esses termos estão levando a linguagem a uma nova e necessária direção. Eles nos ajudam, como sociedade, a reconhecer e dar voz a pessoas fora do espectro binário de gênero.

E assim como nosso entendimento sobre sexo e gênero evolui, assim deve ser nossa visão sobre a menstruação. A menstruação é uma experiência altamente variável, significando diferentes coisas para diferentes pessoas. O resultado em cadeia de usarmos uma linguagem mais neutra é trazer essas experiências menstruais não tão normativas para a conversa (e garantindo, assim, que essas pessoas recebam a atenção necessária). Isso inclui todo mundo desde rapazes trans até mulheres cisgênero na menopausa–já que ter um ciclo menstrual não é o que define a experiência de alguém com o gênero.

A linguagem utilizada pelo Clue que me empoderou para que eu poder aceitar minha identidade não-binária também empodera um homem trans para que ele reconheça os sintomas da endometriose ou SOP. Se esse linguagem também é assimilada por profissionais de saúde, essa pessoa pode ir ao médico sem medo de que sua identidade seja invalidada. Fato é: pessoas de todos os gêneros menstruam, e acessos sem barreiras a apoio e informação beneficiam a todes.

O tabu que eu senti superar ao conversar sobre menstruação na adolescência ainda é prevalente até hoje, e é uma questão que só podemos realmente superar se o fizermos para todo mundo. A linguagem neutra de gênero não é uma moda ou tendência; é um movimento que permite mais pessoas discutirem suas experiências com menstruação ou qualquer outro assunto autêntica e honestamente. Há ainda muito progresso a ser alcançado para adotarmos terminologias neutras tanto em inglês como em todas as outras línguas, mas companhias como Clue, Thinx, Aisle e outras estão pavimentando o caminho para um futuro mais inteligente e inclusivo. E isso é algo a ser celebrado.

Baixe agora o Clue para monitorar a sua menstruação. 

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