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Por que o transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM) passa despercebido com tanta frequência?
Perguntas e respostas com a equipe científica do Clue

O transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM) é uma condição caracterizada por sintomas emocionais, cognitivos e físicos intensos nos dias que antecedem a menstruação, sendo reconhecido oficialmente como diagnóstico desde 2013. Mesmo assim, muitas pessoas passam anos ouvindo que estão exagerando, que estão estressadas ou que é “só uma questão hormonal”, antes que alguém investigue o padrão por trás dos sintomas.
O Clue agora participa de pesquisas que buscam mudar essa realidade, incluindo uma colaboração com pesquisadores da Universidade de Cardiff para entender como o TDPM se manifesta na vida cotidiana. Conversamos com Amanda Shea, PhD, da equipe científica do Clue, para entender por que o TDPM passa despercebido com tanta frequência, quais são as opções de tratamento e como a pesquisa científica pode ajudar a preencher as lacunas existentes.
Quer saber mais sobre o TDPM? Comece pelo artigo TDPM: sintomas, tratamentos e apoio.
Pontos principais:
O TDPM ainda é frequentemente minimizado como uma “TPM forte”. O estigma, a falta de conhecimento entre profissionais de saúde e a semelhança dos sintomas com os da depressão e da ansiedade contribuem para isso.
O TDPM fica na interseção entre a saúde mental e a saúde reprodutiva. Por isso, muitas pessoas são encaminhadas de um profissional a outro e podem esperar anos até receber um diagnóstico.
Existem tratamentos eficazes, mas muitas pessoas nunca têm acesso a essas opções, e nem todas respondem da mesma forma a cada tratamento.
Pesquisas que utilizam dados de monitoramento da vida real, incluindo a colaboração do Clue com a Universidade de Cardiff, buscam melhorar o reconhecimento e o tratamento do TDPM.
Por que o TDPM não é levado a sério?
O TDPM, ou transtorno disfórico pré-menstrual, é uma condição cíclica grave que afeta o humor, as funções cognitivas e as atividades do dia a dia nos dias que antecedem a menstruação. Estima-se que afete cerca de 1,6% das mulheres em idade reprodutiva (aproximadamente 1 em cada 60). Mesmo assim, o TDPM ainda é amplamente incompreendido e frequentemente tratado como uma simples “TPM forte”.
Parte do problema está no estigma: o TDPM se encontra na interseção entre o estigma associado à menstruação, o estigma relacionado à saúde mental e a misoginia na medicina. Por isso, os sintomas muitas vezes são considerados comuns ou minimizados, em vez de levados a sério. Pessoas com TDPM frequentemente ouvem que estão “exagerando”, que estão “hormonais” ou que estão “apenas estressadas”.
O reconhecimento formal do TDPM como diagnóstico também é relativamente recente. Ele só foi reconhecido como um transtorno distinto no DSM-5 (principal manual de diagnóstico psiquiátrico), em 2013. Posteriormente, foi incluído na CID-11 (Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde), aprovada em 2019 e em vigor desde 2022, na qual o TDPM foi classificado principalmente como uma condição ginecológica. O diagnóstico e o tratamento ainda não foram padronizados na prática clínica de rotina.
Por que o TDPM passa despercebido ou é diagnosticado incorretamente?
O TDPM pode ser difícil de diagnosticar. O diagnóstico geralmente depende do monitoramento diário dos sintomas ao longo de pelo menos dois ciclos menstruais, para identificar um padrão em que os sintomas aparecem antes da menstruação e melhoram pouco depois. No entanto, o TDPM pode se manifestar de maneiras bastante diferentes de uma pessoa para outra, e pesquisadores ainda estão buscando compreender melhor seus sintomas e as melhores formas de diagnosticá-lo.
Muitos sintomas também se sobrepõem aos de outras condições, como depressão e ansiedade. Por isso, o TDPM pode facilmente passar despercebido quando profissionais de saúde não investigam especificamente a existência de um padrão cíclico.
Além disso, o TDPM muitas vezes fica em uma lacuna entre a saúde mental e a saúde reprodutiva. Com isso, as pessoas podem ser encaminhadas de um profissional a outro sem receber o apoio de que precisam.
Juntos, esses desafios dificultam o acesso das pessoas com TDPM a um diagnóstico preciso e aos cuidados adequados.
Por que as pessoas com TDPM têm dificuldade para conseguir tratamento e quais são as opções disponíveis?
Pesquisas indicam que o TDPM ainda é pouco diagnosticado e tratado de forma insuficiente, apesar da existência de tratamentos com eficácia comprovada cientificamente.
Pessoas com TDPM frequentemente relatam longas esperas até receber um diagnóstico, ter seus sintomas minimizados ou diagnosticados incorretamente, passar por vários profissionais de saúde antes de receber os cuidados adequados ou ser tratadas para depressão ou ansiedade sem que ninguém identifique a relação entre seus sintomas e o ciclo menstrual.
E, mesmo após receber um diagnóstico, encontrar um tratamento eficaz pode ser um desafio. Nem todas as pessoas respondem da mesma forma aos tratamentos, e encontrar a abordagem mais adequada pode levar tempo.
As opções de tratamento para o TDPM com respaldo científico incluem:
ISRS (antidepressivos): São considerados o tratamento de primeira linha, com fortes evidências de eficácia. Podem ser tomados continuamente ou apenas durante a fase lútea.
Contracepção hormonal: Alguns anticoncepcionais orais combinados (especialmente os que contêm drospirenona e etinilestradiol) podem ajudar, mas não funcionam para todas as pessoas e, em alguns casos, podem piorar os sintomas relacionados ao humor.
Terapias psicológicas: Abordagens como a terapia cognitivo-comportamental (TCC) podem ajudar a lidar com os sintomas e seus impactos na vida cotidiana, especialmente quando combinadas com outros tratamentos.
Hábitos de vida e manejo dos sintomas: Praticar exercícios físicos, manter bons hábitos de sono, monitorar os sintomas e adotar estratégias nutricionais são medidas que podem ajudar a controlar os sintomas. No entanto, geralmente são recomendadas como complemento a outros tratamentos, e não como substitutas, especialmente nos casos mais graves.
Acompanhamento especializado: Para pessoas com sintomas mais graves ou que não respondem aos tratamentos iniciais, podem ser consideradas opções como a supressão hormonal mais intensa ou outras intervenções especializadas. No entanto, essas abordagens geralmente não são consideradas tratamentos de primeira linha.
O que as pessoas com TDPM relatam sobre o acesso aos cuidados de saúde?
Nos comentários que recebemos de pessoas que usam o Clue sobre suas experiências com o TDPM, observamos padrões recorrentes, especialmente em relação ao reconhecimento dos sintomas e ao acesso aos cuidados adequados.
Muitas pessoas relatam que passaram anos sentindo que estavam “enlouquecendo”. Algumas apresentam alterações intensas de humor ou até pensamentos suicidas durante alguns dias do mês, sem entender o motivo. Muitas vezes, é somente depois de começar a monitorar os sintomas que percebem seu padrão cíclico, e essa descoberta pode representar um ponto de virada.
O simples fato de compreender que os sintomas estão relacionados ao ciclo menstrual também pode torná-los mais fáceis de lidar. Isso permite antecipar os dias mais difíceis, organizar uma rede de apoio e conversar com profissionais de saúde com mais segurança.
Leia a história de uma pessoa que usa o Clue e veja como o monitoramento do humor ajudou a confirmar seu diagnóstico de TDPM.
Também recebemos relatos frequentes sobre as dificuldades para conseguir atendimento: não ter seus sintomas levados a sério, ouvir que são “só alguns dias”, receber diagnósticos incorretos ou passar por vários profissionais de saúde sem obter respostas claras. Algumas pessoas ouvem que a contracepção hormonal é sua única opção, mesmo quando ela não funciona ou não é adequada para elas.
Por que é importante pesquisar o TDPM?
O TDPM é uma condição grave que ainda passa despercebida com muita frequência, é pouco compreendida e nem sempre recebe o tratamento adequado. Ampliar as evidências científicas sobre o transtorno é essencial para melhorar o diagnóstico, o tratamento e os cuidados de saúde.
As pesquisas podem contribuir para melhorar o diagnóstico ao identificar padrões mais claros de sintomas e aperfeiçoar os métodos de rastreamento, facilitando o reconhecimento do TDPM de forma mais precoce e precisa.
Também são necessárias para compreender melhor como o TDPM se manifesta na vida cotidiana. A condição não se apresenta da mesma forma em todas as pessoas. Os sintomas, sua intensidade, o momento em que aparecem e a presença de outras condições de saúde variam bastante. Por isso, estudos mais amplos, baseados em dados da vida real, são fundamentais para superar uma visão generalizada do transtorno, que não leva em conta essas diferenças individuais.
As pesquisas também podem ajudar a melhorar as estratégias de tratamento. Embora existam tratamentos com eficácia comprovada cientificamente, nem todas as pessoas respondem da mesma forma, e muitas nunca recebem os cuidados adequados. A pesquisa nos ajuda a entender quais tratamentos funcionam, para quem são mais eficazes e onde ainda existem lacunas no acesso aos cuidados de saúde.
Como o Clue está ajudando a preencher as lacunas nas pesquisas sobre o TDPM?
As pesquisas do Clue buscam compreender melhor como as pessoas vivenciam o TDPM no dia a dia, identificando padrões de sintomas e diferenças individuais que podem passar despercebidos nas abordagens tradicionais de pesquisa.
Historicamente, grande parte das pesquisas sobre a saúde feminina se baseou em pequenas amostras clínicas ou avaliações pontuais. Esses métodos não são os mais adequados para estudar condições que variam ao longo do tempo. Muitas experiências relacionadas à saúde menstrual e reprodutiva, incluindo o TDPM, são dinâmicas, variam bastante de uma pessoa para outra e só podem ser compreendidas plenamente quando observadas ao longo de vários ciclos menstruais.
É nesse contexto que o Clue pode contribuir. Podemos estudar essas experiências em larga escala, em situações da vida real, utilizando dados de longo prazo de milhões de pessoas que usam o aplicativo em todo o mundo. Um exemplo é nossa colaboração com pesquisadores da Universidade de Cardiff. Esse estudo analisa os padrões de sintomas e a presença de outras condições de saúde em pessoas com e sem diagnóstico de TDPM, para compreender melhor como o transtorno se manifesta na vida cotidiana e identificar possíveis lacunas em seu reconhecimento e diagnóstico.
Também realizamos pesquisas internas sobre como as pessoas utilizam o monitoramento menstrual para cuidar da saúde relacionada ao ciclo, incluindo a saúde mental. Isso nos ajuda a entender não apenas o que elas vivenciam, mas também como interpretam esses padrões, se preparam para os sintomas e decidem quando procurar atendimento médico.
Uma pesquisa recente que realizamos por meio de questionários mostrou que o monitoramento ajudou muitas pessoas que usam o Clue a compreender melhor seus corpos, a se preparar para os sintomas e a se sentir mais confiantes ao conversar com profissionais de saúde.
Em última análise, nosso objetivo é ampliar as evidências científicas sobre aspectos da saúde que, historicamente, foram pouco estudados ou tiveram sua importância minimizada, contribuindo para que essas experiências sejam mais reconhecidas e para que as pessoas recebam o apoio de que precisam.