Ilustração: Marta Pucci

Menopausa

Tudo que você precisa saber sobre menopausa e terapia de reposição hormonal

A história da terapia de reposição hormonal é controversa. Veja o que as pesquisas mais recentes dizem sobre o tema.

por Nicole Telfer, Science Content Producer Revisado por Maegan Boutot, Former Science Writer for Clue
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*Tradução: Mariana Rezende

Coisas importantes a saber:

  • A terapia de reposição hormonal (TRH) é usada para tratar alguns sintomas da perimenopausa e da menopausa, como afrontamentos e suores noturnos, e normalmente envolve algum tipo de estrogênio ou progestagênio sintéticos

  • Os resultados iniciais de uma pesquisa significativa descobriram um aumento substancial do risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares e câncer de mama relacionados após uso de TRH oral, mas análises posteriores descobriram que essa relação não é tão clara

  • Dados de novos estudos sugerem que esses riscos variam por idade e momento de uso da TRH

  • Muitas mulheres saudáveis que entraram recentemente na perimenopausa podem usar a terapia de reposição hormonal de forma segura para tratar ondas de calor e suores noturnos

Nota da editora: a terapia de reposição hormonal (TRH) é controversa, portanto, nosso objetivo é sermos super claros. O Clue recebeu um financiamento educacional para pagar autores, editores e verificadores que produziram este artigo. No entanto, o patrocinador não interfere em nada no conteúdo: a ideia, a pesquisa e o produto final são nossos. Nosso objetivo é proporcionar informações neutras e baseadas em evidências que podem beneficiar sua vida. Não endossamos o uso de TRH ou alguma terapia ao invés de outra. Essa escolha é sua e de profissionais de saúde que acompanharem você.

O que é a terapia de reposição hormonal (TRH) e quais hormônios ela inclui?

A terapia de reposição hormonal é usada para ajudar a tratar e aliviar alguns sintomas da perimenopausa (o período de transição para a menopausa) e a menopausa (quando a menstruação para de descer), como ondas de calor e suores noturnos (1).

A TRH implica em "devolver" alguns hormônios como o estrogênio (e muitas vezes o progestagênio também) para aliviar os sintomas da menopausa.

A TRH está normalmente disponível em diversos formatos que podem variar de acordo com o objetivo do tratamento. Os formatos incluem: pílulas, adesivos, géis, sprays ou pomadas (1, 2). Vamos nos concentrar exclusivamente nas pílulas de terapia hormonal de uso oral, que são as mais controversas.

O hormônios usados na TRH oral dependem de uma pessoa ter ou não sido submetida a uma histerectomia. Para pessoas com um útero, a TRH normalmente contém um estrogênio sintético e um progestagênio. Os estrogênios estimulam o endométrio (o revestimento do útero) a crescer e se tornar uma camada espessa (3). Como essa camada geralmente é eliminada durante a menstruação, o endométrio das pessoas que pararam de menstruar pode potencialmente ser estimulado a crescer continuamente sob a influência da terapia com estrogênio, que é um fator de risco para o surgimento do câncer endometrial (4). Adicionar progestagênio em uma fórmula previne o acúmulo de tecido no endométrio.

Se uma pessoa já fez uma histerectomia—o que significa que ela não tem mais um útero— ela pode fazer a terapia de estrogênio sem progestagênios (1).

Mas a TRH já não é tão popular assim. Vamos entender o motivo.

A terapia de reposição hormonal tem sido prescrita para tratar os sintomas da perimenopausa e da menopausa desde os anos 1940. Nas décadas de 1980 e 1990, pesquisas observacionais sobre a TRH sugeriam que ela também poderia ser benéfica para a saúde do coração (5, 6).

Esses resultados pareciam indicar que as mulheres poderiam usar a TRH para reduzir o risco de doenças coronárias, para prolongar seu tempo de vida e melhorar sua saúde como um todo. Para testar essa teoria, pesquisadores nos EUA conduziram um amplo estudo sobre os efeitos da TRH chamado Women's Health Initiative (Iniciativa para a saúde da mulher) (6).

No entanto, os resultados iniciais do estudo demonstraram uma associação entre o uso da TRH e um aumento no risco de doenças cardíacas, ao contrário da hipótese levantada pelos pesquisadores. Também descobriu-se um aumento no risco de câncer de mama e derrame entre pessoas que faziam uso oral da TRH (6 – 8). Os ensaios foram interrompidos e, depois que os resultados iniciais foram publicados, a popularidade da TRH despencou.

Por que os primeiros estudos sobre a TRH não são claros?

As conclusões iniciais, embora preocupantes, não são tão claras quanto os pesquisadores pensaram. Vejamos o motivo.

Os ensaios não fizeram uma distinção entre grupos etários ou quantos anos faltavam para as pessoas entrarem na menopausa.

  • Novas análises dos mesmos dados do estudo Iniciativa para a saúde da mulher descobriram que o tratamento não causou um aumento das doenças coronárias em mulheres que usaram a TRH em dez anos de menopausa (6, 9, 10).

  • Houve inclusive a sugestão de que a TRH poderia prevenir doenças cardíacas nessa população, como os dados observacionais iniciais sugeriram, embora esses números não fossem consistentes o bastante para uma conclusão definitiva (9, 10).

Os ensaios não consideraram se as participantes já tinham feito a TRH antes do começo do estudo (6).

Os ensaios também não levaram em consideração o tipo de TRH que as participantes usaram ou se elas já tinham feito uma histerectomia (6).

  • Os relatórios iniciais da pesquisa Women's Health Iniative alegavam que os resultados do estudo eram aplicáveis a todas as pessoas usando todas as formas de TRH. No entanto, esses resultados iniciais se aplicam somente a uma forma específica de TRH que continha tipos específicos de estrogênio e progestagênio. A TRH à base somente de progestagênio parece afetar o corpo diferentemente de uma forma de TRH combinada. Além disso, existem outras formas de TRH combinadas para os quais os resultados não necessariamente se aplicam, tendo em conta que existem muitas formas de estrogênio e progestagênio (6).

  • Adicionalmente, os ensaios de TRH à base de somente estrogênio foram concentrados em mulheres com histerectomias, cujo risco de desenvolvimento de câncer de mama e doenças cardíacas do tratamento não foram tidos como altos. Esses ensaios foram continuados por mais dois anos (6).

A mídia também teve um papel em deturpar os dados apresentados ao público. Embora o estudo tenha encontrado um aumento de 24% de risco de câncer de mama associado ao uso da TRH, alguns meios de comunicação relataram incorretamente um risco 24 vezes maior – o equivalente a um aumento de 2.300% (6, 11).

Opiniões atuais sobre a terapia de reposição hormonal

Atualmente, quase 20 anos depois dos ensaios da Women's Health Iniative, mais estudos foram conduzidos e pesquisadores já compreendem melhor o impacto que a idade, o momento e o tipo de uso da TRH têm nos benefícios à saúde e quais são seus riscos.

Benefícios reconhecidos da TRH oral

  • Alívio dos ondas de calor e suores noturnos (1, 6)

  • Prevenção da osteoporose e fraturas ósseas (1, 6, 12) (1, 6, 14)

Possíveis benefícios da TRH oral

  • Redução de humores depressivos, irritabilidade e distúrbios do sono (6)

  • Redução no risco de morte associada a doenças cardíacas em mulheres mais jovens (maioritariamente as mais próximas à menopausa e/ou com menos de 60 anos), sobretudo em tratamentos que contêm estrogênio (6, 7, 13)

  • Redução no risco de mortes por qualquer causa (5, 6, 9) para mulheres mais jovens (60 anos ou menos) e/ou para as que estão começando o tratamento nos 10 primeiros anos da menopausa

  • Redução no risco de câncer colorretal (6, 8, 11, 14)

  • Redução no risco de câncer de mama invasivo em mulheres que fizeram uma histerectomia e usam tratamentos que contêm somente estrogênio, embora os resultados sejam mistos e alguns estudos mostrem uma associação oposta (6, 15, 16)

Riscos da TRH oral

  • Sensibilidade nas mamas, inchaço, mudanças de humor, aumento na pressão arterial e sangramento uterino (6)

  • Aumento no risco de doenças cardíacas em mulheres com mais de 60 anos, bem como mulheres mais jovens com doença cardíaca estabelecida ou risco cardiovascular elevado, especificamente nos primeiros dois anos de uso (6)

  • Aumento no risco de derrame em cerca de um terço (6, 17, 18)

  • O dobro do risco de desenvolvimento de coágulos sanguíneos, assim como os anticoncepcionais orais. O risco diminui com o tempo (6).

  • O risco de câncer de mama é ligeiramente maior nas pessoas que fazem tratamentos que combinam estrogênio e progestagênio (6).

  • O aumento no risco de câncer uterino está associado a tratamentos que contêm somente estrogênio em mulheres que não fizeram uma histerectomia (6).

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Devo fazer a terapia de reposição hormonal?

Caso esteja sentindo os efeitos negativos da menopausa no início de sua transição e têm risco baixo de doenças cardíacas e câncer de mama, a TRH pode ser uma boa opção para você.

Outras formas de TRH, como o estrogênio vaginal, podem ser usadas diretamente na vagina como uma pomada ou comprimido, e não impactam o risco de doenças cardiovasculares ou câncer de mama (21).

Embora hajam evidências indicando que a TRH pode ser útil na redução do risco de morte, doenças coronárias e osteoporose, o tratamento não é recomendado atualmente para estes fins (22).

Novas pesquisas sobre a TRH estão constantemente sendo publicadas, portanto, converse com seu(ua) médico(a) para saber mais sobre os riscos, bem como outras opções de tratamento que possam ser melhores para você.

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