Ilustração: Katrin Friedman

Gravidez, parto e pós-parto

Aborto espontâneo: mais comum do que você pensa

por Anna Druet, Ex-gerente de Ciência e Educação
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Tradução: Mariana Rezende

Fala-se muito sobre bebês, mas o debate sobre os aspectos menos fofos da saúde reprodutiva é praticamente inexistente. Um desses aspectos, o aborto espontâneo, além de ser o mais negligenciado, é uma parte muito normal do ciclo reprodutivo. Ele acontece com todos os mamíferos que engravidam.

Quão comuns são os abortos espontâneos?

O aborto espontâneo pode acontecer em uma a cada cinco gestações detectadas (1). A taxa de aborto é mais próxima de um a cada três quando se trata de gravidez não detectada (2, 3, 4). Na maioria dos casos, o aborto espontâneo não é causado por ações, comportamento ou mesmo pelo corpo da pessoa grávida.

Apesar disso, ainda há muita confusão, silêncio e desinformação em torno da questão. Figuras públicas como Priscilla Chan falaram sobre o isolamento que sentiram durante suas experiências pessoais de aborto espontâneo. Compreender o que é o aborto espontâneo e por que isso acontece é um passo importante para enfraquecer o estigma que o envolve.

Uma menstruação atrasada pode ser um aborto espontâneo

Um aborto espontâneo é uma gravidez interrompida nas primeiras 20 semanas, embora a maioria aconteça nas primeiras oito semanas (5). O aborto espontâneo pode acontecer até mesmo antes da gravidez ser detectada.

Em pessoas que têm relações sexuais desprotegidas, não é incomum que a causa de um ciclo irregular seja um aborto espontâneo, antes que a pessoa sequer saiba que está grávida (4, 6).

Como o aborto espontâneo pode acontecer na mesma época em que a menstruação é esperada, é possível que ele passe despercebido.

Nem todos os óvulos fecundados se transformam em gravidez

Quando um espermatozoide encontra um óvulo na trompa de Falópio, ele pode ser fecundado. Se isso acontecer, o óvulo fecundado então cresce e se desenvolve um pouco antes de poder se implantar no útero. Muitos óvulos fecundados não passam dessa fase, porque não começam a se desenvolver ou não são implantados. Nestes casos, uma pessoa não engravida e o ciclo menstrual continua normalmente.

Na maioria das vezes, o aborto espontâneo é aleatório

Grande parte dos abortos espontâneos acontece pelo mesmo motivo que a maioria dos óvulos fecundados não chega à gravidez: "anomalias cromossômicas". Isso pode acontecer quando há um problema nos genes do óvulo, no espermatozoide ou em ambos. Esses problemas geralmente são causados por erros aleatórios e normais que acontecem quando as células se dividem e não porque existem algum problema grave nos genes de um dos pais. O aborto é a maneira como o corpo lida com essas situações após a implantação de um óvulo.

Entre 5 e 7 de cada 10 abortos espontâneos são causados por anormalidades cromossômicas no embrião (7, 8). Em muitos desses casos, um embrião nem sequer começa a se desenvolver.

Um aborto espontâneo também pode ser causado por uma condição médica na pessoa grávida. Ele pode acontecer por causa de uma condição hormonal, como a síndrome do ovário policístico, um distúrbio da tireoide ou um problema físico no útero, como por exemplo, condições como miomas uterinos ou endometriose (9, 10, 11, 12). O aborto espontâneo também pode ser causado por problemas como infecções, exposição a certas toxinas ambientais, alto estresse e comportamentos como o consumo de álcool (13, 14).

Depois que uma gravidez precoce é interrompida, o tecido interno do útero, junto com qualquer tecido novo que tenha crescido, geralmente se desprende e é expelido do corpo pela vagina. No momento em que ocorre o sangramento, a gravidez já foi interrompida, o que significa que um aborto espontâneo não pode ser "controlado" pela interrupção do sangramento ou outros sintomas, como as cólicas.

A maioria das pessoas que tiveram um, dois e até três abortos espontâneos inexplicáveis pode ter uma gravidez saudável (15, 16).

É possível ser fértil mesmo depois de um aborto espontâneo

Pode ser que o sangue e o tecido de um aborto espontâneo demorem de algumas horas a semanas para que sejam totalmente expelidos do útero. Se um aborto espontâneo acontecer dentro das primeiras oito semanas de gravidez, geralmente a menstruação leva de 4 a 6 semanas para voltar ao normal (17).

É possível voltar a ser fértil imediatamente após um aborto espontâneo, o que significa que uma pessoa pode engravidar mesmo antes de sua menstruação voltar.

Os médicos geralmente recomendam esperar um ou mais ciclos antes que se volte a tentar engravidar.

As emoções podem variar

Uma a cada duas pessoas poderá experimentar sintomas emocionais consideráveis nas semanas e meses após um aborto espontâneo (18). Ansiedade, tristeza, luto e depressão são sentimentos comuns que podem durar semanas ou meses. Outras pessoas podem sentir alívio, caso não queiram engravidar.

Embora os profissionais de saúde possam ser ótimos para tratar do nosso corpo, eles nem sempre estão preparados para lidar com as nossas emoções de forma mais apropriada... Algumas pessoas precisarão procurar ajuda profissional para lidar com emoções fortes que perduram e se tornam sufocantes.

Reconhecer uma perda dolorosa pode ser uma ferramenta útil na recuperação emocional (19).

Por exemplo, algumas pessoas optam por um enterro dos tecidos curetados e outras preferem dar um tempo das atividades cotidianas para lidar com o sofrimento.

Conhecer suas opções pode ser de grande ajuda

A maioria dos abortos espontâneos não precisa necessariamente de intervenção e pode ser administrada medicamente com um processo chamado "espera vigilante" (20, 21). Algumas pessoas podem optar pela intervenção para ter algum controle sobre a experiência e/ou para que ela acabe mais depressa. Outras podem receber intervenção porque estão em risco de uma complicação ou porque o aborto espontâneo não foi finalizado por conta própria. Dependendo do cenário, as intervenções incluem um procedimento de aspiração para remover o conteúdo uterino ou uma pílula para ajudar a eliminá-lo mais rapidamente.

Entre em contato com um profissional de saúde se achar que está tendo um aborto espontâneo. Serão feitas algumas perguntas para garantir que esteja tudo bem. Algumas pessoas podem precisar de um exame de sangue. Em certos casos, um aborto espontâneo não é finalizado por conta própria e precisam de intervenção. Se sentir dor aguda, febre ou dor no ombro vá ao médico ou pronto-socorro para descartar complicações como a gravidez ectópica.

O controle dos padrões de sangramento e outros sintomas com o Clue durante e/ou após um aborto espontâneo pode ajudar você a ter um registro de como as coisas estão mudando em seu corpo. O Clue também pode ajudar a detectar quando algo pode estar errado ou quando um aborto espontâneo pode precisar de tratamento adicional. Se estiver preocupada com o seu ciclo ou com quaisquer sintomas, fale com um profissional de saúde.

Lembre-se de que você pode garantir que um aborto espontâneo (ou outros ciclos anômalos) não afetem suas previsões no Clue (e suas médias estatísticas) [excluindo quaisquer ciclos irregulares] posteriormente.

A compreensão de como o aborto espontâneo é realmente comum e os motivos pelos quais ele acontece pode nos ajudar a orientar e informar o processo emocional e de tomada de decisões. Quanto mais conseguimos conversar sobre isso, mais fraco se torna o estigma cultural.

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*O Clue preza pela neutralidade de gênero: falamos de menstruação a partir de um esforço inclusivo - leia e saiba mais.

Ilustração de um microscópio

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