Arte: Marta Pucci

Sociedade

Ainda precisamos menstruar?

A evolução do corpo humano e a necessidade do sangramento mensal

Já é notório que uma pessoa pode deixar de menstruar usando anticoncepcionais. Já temos um mercado que oferece mil e uma maneiras para tornar o processo da menstruação menos desconfortável, como coletores menstruais, calcinhas absorventes e até um aparelho de estimulação elétrica nervosa transcutânea, chamado TENS, que emite "choques" de baixa voltagem e melhora a dor das cólicas.

No entanto, uma pesquisa sobre a percepção que algumas mulheres têm da menstruação demonstrou que maioria acredita que menstruar é desagradável, incômodo e limitador (1). Se a medicina evoluiu e o mundo também, será que não cabe a pergunta: ainda precisamos menstruar?

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Menstruar ou não: eis a questão

A partir dos anos 1960, tornou-se possível não só intervir nos ciclos férteis femininos, como também produzir uma alteração nos padrões de sangramentos menstruais (2). Nas últimas décadas, temos registrado avanços significativos no conhecimento dos padrões reprodutivos e, consequentemente, das ciências biomédicas. Tais avanços permitem a identificação de problemas relacionados à menstruação, além de uma interferência direta no ciclo de modo a exercer mais controle sobre a concepção e também sobre a própria existência do sangramento menstrual (3).

Ginecologista e pesquisador baiano, Dr. Elsimar Coutinho foi um dos primeiros especialistas que divulgou a supressão da menstruação no Brasil. Ele é autor do famoso livro "Menstruação, A Sangria Inútil" e advoga pelo direito das mulheres de suprimirem a menstruação e com isso terem mais qualidade de vida.

Em uma entrevista concedida ao Dr. Dráuzio Varella, Coutinho afirma que a menstruação não é natural e que nos tempos que correm a mulher já não deveria menstruar mais. Segundo ele, o natural para o corpo da mulher é a gravidez. Ele enfatiza as diferenças entre natureza e cultura, salientando que foi a modernização humana que fez as mulheres menstruarem por tantos anos, uma vez que, na pré-história, elas estavam muito mais frequentemente grávidas. Pensando na mulher como ser biológico, o natural não era menstruar, era estar grávida ou amamentando, porque o que a natureza quer é que o ser humano reproduza (4).

Ainda na entrevista a Varella, o Dr. Elsimar Coutinho postula que foram a vida moderna e a evolução sócio-cultural – por exemplo, a profissionalização das mulheres – as responsáveis pelo ciclo menstrual como um acontecimento mensal, frequente e, consequentemente, um “incômodo desnecessário”. Neste ponto, o especialista vai além e afirma que a ausência de menstruação também está correlacionada a uma diminuição no risco daquilo que é categorizado como "câncer da mulher", ou seja, câncer de útero, ovário e mama. Coutinho aponta também para outras condições que a não menstruação pode evitar, como a endometriose e a anemia, além da tensão pré-menstrual (4).

Quanto ao título polêmico de seu livro “Menstruação, A Sangria Inútil”, o médico explica a Dráuzio Varella ter sido uma opção dos editores nos EUA, que por uma questão mercadológica, acreditaram que dizer que a menstruação é obsoleta (em inglês o título é "Is Menstruation Obsolete?*", em tradução literal, “A menstruação está obsoleta?”), provocaria mais curiosidade do que propriamente afirmar que a menstruação é opcional.

E Coutinho ainda vai mais adiante, segundo ele, “no futuro, quando as mulheres estiverem fazendo viagens interplanetárias etc., elas não poderão menstruar (...), no futuro elas vão descobrir que só podem ser competitivas na vida não menstruando” (4). Tal afirmação pode soar problemática, sobretudo se tivermos em consideração que nem todas as pessoas que menstruam estão dispostas a tomar hormônios para suprimir a menstruação, inclusive por questões de saúde. Não seria essa afirmação um tanto limitadora?

Contraponto: dizer que a menstruação é inútil pode ser beneficial para a indústria farmacêutica?

Cecília Sardenberg, acadêmica na área de Antropologia Social, em seu estudo “De sangrias, tabus e poderes: a menstruação numa perspectiva sócio-antropológica”, oferece um contraponto à visão do Dr. Elsimar Coutinho, afirmando que usar o termo “inútil” para falar sobre a menstruação e ressaltar seus males acaba por ser de interesse de fabricantes de anticoncepcionais. Segundo Sardenberg, “nessa luta pelo controle do poder simbólico sobre a menstruação, estão em jogo os interesses das indústrias farmacêuticas e de outros detentores do poder econômico que têm a lucrar com a crescente medicalização dos fenômenos relativos à vida procriativa da mulher” (3).

Por que menstruar ainda é um tabu?

Como já abordamos anteriormente, diversos fatores contribuíram para que a menstruação se tornasse tabu, dentre eles a evolução, a história, a cultura, as religiões e as visões patriarcais da sociedade em geral. São essas visões que também contribuem para que as conversas sobre as experiências menstruais ainda sejam limitadas a poucas pessoas, que o sangue menstrual seja visto como “sujo” e que precise ser “escondido”, como é o caso de diversas campanhas publicitárias para artigos menstruais. Quem nunca viu uma propaganda em que o sangue menstrual é azul?

Em uma perspectiva trazida pelas Ciências Sociais, a graduanda da Universidade Federal de Juiz de Fora, Thaís Melo de Souza busca respostas para a questão do estigma que a publicidade pode trazer, sobretudo em comparação aos esforços de grupos feministas para quebrar o tabu da menstruação e oferecer mais conforto físico e psicológico para quem menstrua (5).

Souza analisou situações no discurso de campanhas publicitárias em que a menstruação é tratada com uma prisão e que os produtos oferecem uma espécie de liberdade aos malefícios do ciclo. Geralmente as propagandas trazem imagens de mulheres felizes andando à cavalo ou de bicicleta em um mundo colorido e alegre. Segundo Souza, a publicidade esconde e, de certa forma, falsifica a experiência real de menstruar, associando o uso de determinados produtos com higiene, mobilidade e felicidade (5).

Quem menstrua sabe que a experiência verdadeira não funciona bem assim. Por que não falar das coisas como elas realmente são?

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Ciborgues versus natureza

Também podemos colocar as coisas em termos, digamos, ciborguianos (e talvez até filosóficos): o corpo humano que conta com ajuda de tecnologias para modificar suas funções naturais, aprimorá-las, enriquecê-las. Um ciborgue, neste caso, não tem a ver com ideias futuristas e distópicas, ele nada mais é do que uma criatura pós-humana que surge da combinação entre a mecanização do humano e a humanização da máquina. Usamos óculos, próteses, anabolizantes, anticoncepcionais, técnicas de reprodução artificiais, tudo isso para burlar nossas limitações, normalizar um estilo de vida, substituir membros, em suma, para alcançarmos novas formas de liberdade (6).

Uma das estudiosas pioneiras e famosas pelos estudos do "ciborguismo", com seu “Manifesto do Ciborgue”, é a norte-americana Donna Haraway. Ela acredita que estamos tão interligados às máquinas que já não podemos enxergar um mundo em que, por exemplo, o uso de anticoncepcionais (e hormônios, de maneira geral), possa ser prejudicial para a libertação das mulheres. O “Manifesto do Ciborgue” advoga por essa libertação das mulheres e também sobre os perigos oferecidos pela visão de que elas são “naturalmente inferiores”, como se tivessem sido feitas para serem mães, donas de casa, eternamente sensíveis e muito delicadas para o trabalho no mundo lá fora. (6) Haraway é conhecida pela afirmação “prefiro ser uma ciborgue a ser uma deusa”.

Por falar em deusas, uma perspectiva que tenta “naturalizar” o ciclo e a ideia de feminilidade é o chamado Sagrado Feminino, um movimento que pretende honrar o feminino ancestral. É uma visão que correlaciona o feminino à natureza enquanto mãe, o ser que carrega a vida e, na ausência da gravidez, a menstruação é tida como possibilidade de renovação da vida a cada ciclo.

Grande parte do conhecimento produzido em torno da ideia de Sagrado Feminino vem de bases esotéricas e tem grande expressividade em blogs e livros ligados à espiritualidade. Uma das especialistas no tema é a inglesa Miranda Gray, autora do popular “Lua Vermelha: as energias criativas do ciclo menstrual como fonte de empoderamento sexual, espiritual e emocional” (best-seller na lista dos mais vendidos em “Magia, Religião e Espiritualidade” na Amazon Brasil). O livro aborda os arquétipos e a simbologia da menstruação e feminilidade, oferecendo exercícios para proporcionar uma sintonia com as diversas fases do ciclo menstrual.

Para Gray, louvar e honrar a menstruação é uma forma de libertação das mulheres, que foram afastadas de sua natureza cíclica pelos avanços tecnológicos e estruturas patriarcais.

Afinal, precisamos menstruar ou não?

Não podemos afirmar isso categoricamente. Embora não existam soluções únicas, visões polêmicas, futuristas, culturalmente e cientificamente embasadas como a dos especialistas acima citados podem nos ajudar a pensar na questão da necessidade física, biológica, cultural e filosófica do sangramento mensal.

A menstruação não deve ser vista como um fenômeno isolado, ou seja, somente biológico ou somente cultural. É importante que seja percebida e debatida em toda a sua amplitude, sobretudo pensando que, se biologicamente somos muito parecidos, em termos de cultura, vivências e personalidades somos muito diferentes. Algumas pessoas podem se sentir mais livres menstruando, outras não menstruando.

Vivenciar a menstruação de uma maneira informada, seja suprimindo-a, seja louvando-a, é um bom caminho para uma vida mais saudável e sem tabus. Podemos pensar que, com as tecnologias e a sociedade em constante evolução, o futuro pode ser mais sorridente para as pessoas que optam por qualquer um desses caminhos.

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