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O ciclo menstrual afeta a eficácia das vacinas?
Pesquisa científica no Clue
Uma nova pesquisa utilizando dados do Clue app sugere que a fase do seu ciclo menstrual em que você recebe a vacina pode influenciar a ocorrência de efeitos colaterais e, possivelmente, a duração da proteção vacinal.
Os hormônios influenciam o seu sistema imunológico
Se você já percebeu que tem mais chances de ficar doente em determinados momentos do seu ciclo, pode haver uma razão biológica para isso.
Os cientistas sabem há muito tempo que as mulheres apresentam respostas imunológicas mais fortes do que os homens (1). Elas contraem menos infecções, combatem resfriados, gripes e a COVID-19 mais rapidamente e produzem mais anticorpos após a vacinação, inclusive contra a COVID-19.
No entanto, nem tudo são boas notícias; uma resposta imunológica mais forte pode significar que o corpo reaja exageradamente a possíveis ameaças imunológicas, o que explica por que as mulheres representam 80% dos diagnósticos de doenças autoimunes e por que são mais propensas a relatar efeitos colaterais da vacina (2).
Uma das principais razões para essa diferença? Os hormônios.
Embora os efeitos dos hormônios reprodutivos possam variar dependendo das circunstâncias, o estrogênio costuma estar associado a respostas imunológicas mais intensas, incluindo mais efeitos colaterais e maior produção de anticorpos após a vacinação, enquanto a progesterona e a testosterona podem, muitas vezes, atenuar as respostas imunológicas (3).
As mulheres, especialmente entre a puberdade e a menopausa, apresentam níveis muito mais elevados de estrogênio e progesterona, enquanto os homens apresentam níveis mais elevados de testosterona.
Mas esses hormônios não diferem apenas entre homens e mulheres. Eles também variam ao longo de cada ciclo menstrual, com o estrogênio predominando na primeira metade do ciclo (a fase folicular) e a progesterona predominando na segunda metade (a fase lútea).
Portanto, se os hormônios influenciam diferentes respostas à vacina e esses mesmos hormônios variam ao longo do ciclo menstrual, a pergunta óbvia é: o momento do seu ciclo afeta a forma como você responde a uma vacina? Faz diferença se você for vacinada no 5º ou no 22º dia? Até agora, essa questão permaneceu quase totalmente inexplorada.
O que fizemos
Nossa equipe de pesquisa, uma colaboração entre cientistas da London School of Hygiene & Tropical Medicine, da Oregon Health & Science University, da Brunel University London, do Instituto de Ciências Evolutivas de Montpellier e do Clue, decidiu investigar se a fase do ciclo menstrual em que você se encontra influencia sua reação à vacina contra a COVID-19.
Realizamos uma pesquisa no aplicativo Clue perguntando às pessoas quando receberam a primeira dose da vacina contra a COVID-19, quais efeitos colaterais apresentaram, qual foi a gravidade deles e se haviam contraído a COVID-19 desde então.
Em seguida, cruzamos as respostas com os dados do ciclo menstrual no Clue para identificar exatamente em que dia do ciclo elas foram vacinadas.
Por que isso é importante: como essas pessoas que utilizavam o Clue já vinham monitorando seus ciclos no aplicativo antes de serem vacinadas, foi possível utilizar dados reais de monitoramento, em vez de depender apenas da memória.
Das 1.474 pessoas do Clue incluídas na análise:
760 foram vacinadas na fase folicular, quando o estrogênio é dominante
714 na fase lútea, quando a progesterona é dominante
O que descobrimos: a relação entre o ciclo e a vacina
É mais provável que você tenha efeitos colaterais se tomar a vacina na primeira metade do seu ciclo.
As pessoas participantes vacinadas na fase folicular apresentaram 35% mais chances de relatar efeitos colaterais após a vacinação, em comparação com aquelas vacinadas na fase lútea.
Esse resultado se manteve mesmo quando excluímos as pessoas vacinadas logo antes ou nos primeiros dias da menstruação, o que nos dá confiança de que os efeitos colaterais foram causados pela vacina, e não pela TPM ou pela menstruação.
O momento do ciclo pode afetar a proteção contra a infecção — mas são necessárias mais evidências
Também examinamos se a fase do ciclo no momento da vacinação previa a duração da proteção. Aquelas vacinadas na fase folicular demoraram, em média, 35 dias a mais para serem infectadas (200 contra 165 dias).
Isso sugere uma proteção melhor, possivelmente porque elas foram vacinadas quando os níveis de estrogênio estavam mais elevados. No entanto, com apenas 82 infecções na análise, ainda não podemos tirar conclusões definitivas. São necessárias mais pesquisas.
Por que só estamos descobrindo isso em 2026?
Historicamente, o ciclo menstrual tem sido ignorado na pesquisa médica, por ser considerado complicado demais ou pouco importante para ser estudado. Este estudo e outros semelhantes mostram que essa suposição está errada.
O ciclo menstrual tem impactos em todo o corpo, influenciando a função imunológica, a percepção da dor, o humor e muito mais, além da simples reprodução. É uma variável biológica importante, e a ciência finalmente está se atualizando.
O que isso significa para sua próxima vacina
Isso não significa que você deva programar suas vacinações para uma fase específica do seu ciclo. Vacinar-se assim que for possível é muito mais importante do que se preocupar com o momento do ciclo. Este é o primeiro estudo a analisar como os ciclos menstruais afetam as vacinas, e são necessárias muitas mais pesquisas antes que quaisquer recomendações possam ou devam ser feitas.
Mas estudos como este só são possíveis porque as pessoas acompanham seus ciclos. Os dados gerados pelas pessoas participantes do Clue nos ajudaram a descobrir essas relações entre os ciclos e as vacinas, que, de outra forma, teriam passado despercebidas.
O que vem a seguir? Gostaríamos de explorar isso com dados confirmados de ovulação, o que nos dará um panorama muito mais preciso de como mudanças hormonais específicas interagem com a resposta à vacina.
Interessado em saber como os dados do Clue estão ajudando pesquisadores a compreender melhor a saúde menstrual e reprodutiva? Você pode explorar todos os artigos revisados por pares do Clue, estudos em andamento e colaborações de pesquisa na página de Pesquisa Científica do Clue.
