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LGBT+ Vozes

Planejando uma gravidez como uma pessoa trans não-binária

por Elliott Cennetoglu
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*Tradução: Sarah Luisa Santos

Boa noite, senhoras, senhores e o resto de nós”. Essa foi a minha fala inicial de uma peça em turnê mundial por anos. Em quase toda cidade que nos apresentamos, a maioria da plateia me odiava por causa dessa fala e não tinham medo de me deixar saber isso. Mas, para “o resto de nós” essa era a razão de viver. E, claro, era para esse “resto” que eu estava proclamando essa fala.

Mais para frente, quando a peça foi para a Broadway e Kate Bornstein assumiu aquele papel, alguém da plateia gritou uma noite, “Você não é bem-vinda aqui”. A resposta de Kate foi, claro, generosa e calorosa ao acolher essa mulher apesar de sua ignorância. Mas é um trabalho difícil representar “o resto de nós”, seja dessa maneira aberta e pública ou apenas andando pela rua. A história de cada pessoa é diferente e eu posso apenas compartilhar a minha.

Olá. Meu nome é Elliott. Meus pronomes são they/them (nota: gramaticalmente, em inglês é possível se direcionar a pessoas com estes pronomes que não declinam em gênero, que geralmente são traduzidos como eles/elas). Eu tenho que sair sem parar do armário como pessoa trans não-binária, queer e como não-todo-trans-não-binário-queer. Eu uso o app Clue há seis meses, e estou planejando uma gravidez com a pessoa com quem vivo (nota: escolhemos traduzir "my partner" por "a pessoa que vivo" por assim não implicarmos gênero binário). Seus pronomes também são they/them. Entre nós, eu sou o corpo elegível para uma gestação.

Como eu expliquei para minha mãe, meu irmão, meu segurador, e uma porção de amigos, tanto velhos quanto novos, entre os nosso dois corpos, em teoria nós possúimos as devidas partes para fazer isso acontecer.

Quando comecei a usar o Clue, foi porque tive sangramentos aleatórios e de escape (spotting - pequenos sangramentos ao longo do mês), apesar de ter o DIU Mirena por 1 ano, e tomar testosterona há seis. Faz tanto tempo que tenho uma dissociação dos meus órgãos reprodutivos que para mim isso é como uma intrusão constante e imprevisível, até que a pessoa com quem vivo começou a observar regularmente os ciclos de mudança no meu corpo.

Eu li sobre o Clue há um ano na revista LOLA, e eu tenho lido o blog do Clue de vez em quando desde então. Portanto, foi natural escolher o Clue em vez de outros apps. E ajuda o fato do design ser divertido e inclusivo na questão de gênero.

Uma vez que eu comecei a acompanhar outros sintomas com o app – além do volume de sangramento e sangramento de escape – como fluído cervical, pele, digestão e níveis de energia, eu consegui ver que realmente tenho um ciclo previsível.

O app também ajudou a diferenciar entre manchas cíclicas e o sangramento inesperado que eu estava tendo, já que os dois são parecidos.

Depois de alguns meses assim, eu comecei a realmente sentir uma conexão com esses órgãos da minha pélvis. E, um dia do nada, eu tive uma “febre” por bebês. Eu nunca quis ter filhos, imagine então ter uma gravidez. Mas creio que mudar para um país com um custo de vida acessível e sem tiroteios em escolas deram espaço para eu mudar minha opinião sobre ter filhos, e assim levar uma gravidez adiante.

Eu comecei a pesquisar, falar com outros pais que são queer e trans, ler artigos, estudos, e livros. Quando o assunto é saúde trans, os melhores recursos são geralmente uma combinação de intuição e a própria comunidade trans. E a comunidade trans geralmente usa as pesquisas cis para preencher as lacunas, mas fazem isso a contra gosto. Portanto, com esse conselho, eu emprestei de um amigo o livro “Taking Charge of Your Fertility” de Toni Weschler, e li inteiro em um dia.

Há diversos passos antes de deixarmos “rolar e ver o que acontece”, como é de praxe prescrito para casais cujos os corpos são heteronormativos, não trans. E enquanto é possível ter uma gravidez usando testosterona, isso não é comum. E notando a minha temperatura junto com o meu ciclo mostrou que o meu sangramento é anovulatório.

Não existe muita pesquisa especificamente para ovulação em pessoas trans e não conformadas com seu gênero depois que elas param com a testosterona, mas um estudo pequeno mostrou que 25 pessoas que tiveram gravidez, 8 entre 10 delas começaram a menstruar em 6 meses (1). Eu sou membro de um grupo no Facebook chamado Birthing and Breast or Chestfeeding for Trans People and Allies, e os membros do grupo compartilharam que, para eles, começar a ovular demorou de semanas até um ano depois de interrupção do uso da testosterona.

Existe ainda muita pesquisa a ser feita. Eu fiz a mastectomia há três anos, e no momento existem maneiras de induzir a produção de leite em ambas as pessoas AMAB e AFAB (2-7). Eu não tenho certeza se este é o caminho para mim. [Nota do time científico do Clue: em pessoas que tiveram esse tipo de cirurgia, amamentar no peito pode não ser possível, ou pode ser bem difícil, dependendo de como a cirurgia foi feita (8). ]

E eu não decidi o que fazer caso eu e a pessoa com que vivo não possamos conceber sem intervenções médicas constantes. Nós temos carreiras e detalhes sobre como organizar a casa para resolver tudo isso. Mais para frente, vão existir questões de como a nossa criança vai nos chamar, qual o nome e pronomes vamos usar até ela nos falar qual ela quer usar. Existe toda uma nova transição social pela frente: puberdade numero três.

Nos anos depois da cirurgia, eu recebo olhares em vestiários masculinos. Antes disso, eu recebia olhares em vestiários femininos.

Em qual eu irei quando o meu corpo masculino afeminado estiver grávido? Onde eu irei nadar? Eu vou ter que usar um maiô porque os meus mamilos agora serão considerados femininos? Quando eu começar a ir a consultórios, aulas de yoga para pessoas grávidas, eu vou ser a única pessoa que não se identifica como mulher, então o quê?

Não existe atualmente nenhuma maternidade ou centro médico que inclua pessoas trans onde eu moro, e aqui existe uma ideia muito binária entre os professionais de saúde sobre a vida trans. Amigos aqui na Alemanha que fizeram a cirurgia “de cima” foram perguntados por seus médicos quando eles vão fazer a cirurgia “de baixo”. Minha experiência nos EUA é que existe mais flexibilidade e menos pressão para fazer a completa reconstrução cirúrgica.

De acordo com uma pesquisa recente, pessoas trans grávidas podem se sentir hipervisíveis ou invisíveis (9). Eu não consigo mais passar como uma mulher cis porque meu corpo não parece mais assim. Embora exista um encontro, digamos, biológico de gênero no meu corpo, minhas necessidades sociais, emocionais e médicas como uma pessoa trans não-binária serão diferentes de quem é cis – começando muito antes da concepção, durante a gestação, durante o parto e muito depois tendo uma criança.

Eu estou agora há dois meses sem testosterona. Eu queria parar de tomar T no começo desse processo porque eu estava com medo que as mudanças físicas causadas por essa mudança hormonal seriam demais para mim. Eu tive medo de mudar de ideia.

Antes de T, eu não tinha conexão com o meu corpo. Eu não queria perder a relação que eu construí com ele ao longo desses seis anos.

Mas essa jornada gestacional com meu corpo não é uma regressão. Em vez de perder o que eu construí, estou me conectando com o meu corpo de formas que eu nunca imaginei que poderia como uma pessoa trans. Estou apenas no começo, mas já é uma conexão profunda. E, vai se aprofundar ainda mais.

Baixe agora o Clue app e comece a acompanhar alterações e sintomas durante seu ciclo.

*O Clue preza pela neutralidade de gênero: falamos de menstruação a partir de um esforço inclusivo - leia e saiba mais.

An illustration of a heart

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