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Arte: Marta Pucci

Prazer

À procura do orgasmo: afinal, quantos tipos de orgasmos femininos existem?

A pesquisa sobre o orgasmo feminino.

por Maegan Boutot, Former Science Writer for Clue
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*Tradução: Joana de Sousa

(Nota: Este artigo usa o termo feminino e masculino para se referir à anatomia sexual cis-gênero. Uma pessoa com órgãos genitais total ou parcialmente femininos pode ou não considerar-se como sendo do gênero feminino, tal como uma pessoa com órgãos genitais masculinos pode ou não identificar-se com o gênero masculino. Também há pessoas que têm tanto órgãos sexuais masculinos como femininos, mas infelizmente ainda não há pesquisa suficiente sobre esta população. Usamos os termos masculino e feminino para descrever órgãos sexuais porque não há um acordo sobre que outros termos poderia usar).

O orgasmo é uma experiência difícil de estudar. Semelhante ao estudo do humor ou da dor, o orgasmo precisa ser interpretado não apenas através de mecanismos biológicos, mas também por tendências psicológicas, sociológicas e históricas. Ao longo da história, nos países ocidentais, os orgasmos femininos foram altamente examinados. Por vezes eram vistos como doentios ou errados, e orgasmos que eram alcançados através de estímulos de uma relação que não fosse heterossexual eram considerados inaceitáveis (1, 2).

A perspetiva de que alguns orgasmos são moralmente superiores a outros tem sido apoiada por profissionais da saúde.

Sigmund Freud popularizou a ideia que as mulheres maduras sentem o orgasmo vaginal enquanto as imaturas preferem estimulação clitoriana. (1,3)

Esta ideia estava tão presente na saúde do século XX que a incapacidade de chegar ao orgasmo através de sexo penetrativo heterossexual chegou a se tornar um transtorno listado no DSM III (o livro de diagnóstico de psicologia e psiquiatria) (1,4).

Embora a maioria dos profissionais de saúde não considere mais a incapacidade de atingir o orgasmo através do sexo com penetração (a menos que seus pacientes se sintam perturbados) como problema, muitas pessoas consideram que o orgasmo é um requisito para sexo feliz, significativo e/ou satisfatório (1, 2). Algumas pessoas também sentem que os orgasmos devem ser reservados ao ato sexual, ao invés de terem um orgasmo durante a masturbação (1). O orgasmo é ótimo, mas a pressão para ter um orgasmo, ou um certo tipo de orgasmo em um determinado momento, pode tornar o sexo estressante e desagradável.

O peso histórico e social do orgasmo pode dificultar a pesquisa.

Pesquisadores podem fazer perguntas tendenciosas sugerindo que há mais do que um tipo de orgasmo.

Entretanto, não há um acordo entre os pesquisadores da área sobre como classificar os orgasmos (3,5). Por exemplo, se estimular uma parte do corpo faz com que os genitais fiquem excitados, levando a pessoa ao orgasmo; foi a estimulação da outra parte do corpo que causou orgasmo ou foi a excitação dos genitais que o causou? Mesmo que um pesquisador fizesse um estudo que usasse ferramentas para medir os estímulos, isto não seria suficiente; frequentemente, as pessoas com genitais femininos apresentam sinais de excitação sem que se sintam excitadas, o que sugere que os estímulos corporais são um indicador insuficiente de interesse sexual ou de prazer (5).

Um problema para os pesquisadores surge na hora de reunir participantes para estudos sobre sexo e orgasmo. Inscrever participantes em um estudo é sempre complicado, mas quando alguém estuda um tópico potencialmente considerado tabu ou privado, pode ser difícil garantir que sua amostra seja representativa de todas as pessoas em todas as culturas (isso também é chamado de validade externa). Também pode ser difícil para os participantes lembrar com precisão ou saber onde e como eles foram estimulados para chegar ao orgasmo (5).

Portanto, considerando todas essas questões, por que falar sobre orgasmos? Dada a grande quantidade de comentários sobre o orgasmo, é importante entender como nossos corpos e os corpos de nossos parceiros realmente funcionam para que possamos ajudar a reduzir o estigma e o estresse durante o sexo. No caminho, podemos aprender algumas coisas sobre como tornar o sexo mais agradável.

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Diferentes tipos ou diferentes estímulos?

Há muitos artigos de “ciência popular” (artigos que não foram publicados numa revista de investigação) afirmando que existem entre quatro a 15 tipos diferentes de orgasmos. Assim como mencionei antes, há um debate enorme sobre como classificar orgasmos. No entanto, há poucas evidências que sustentam de forma confiável a ideia de que estímulos diferentes (por exemplo, repetidamente sob condições experimentais) causem orgasmos de tipos ou intensidades diferentes. A maioria das pessoas relata que alguns orgasmos são melhores do que outros (6), porém isto não está necessariamente relacionado ao estímulo que causou esse orgasmo.

Estimulação clitoriana

O clitóris é um conjunto de terminações nervosas na parte frontal da vulva feminina, por baixo do bulbo clitoriano (a parte triangular dos genitais femininos que se liga aos pequenos lábios) (3). O clitóris, assim como o pênis, expande-se, fica ereto e se torna mais sensível à medida que a pessoa fica mais excitada sexualmente (3,5).

Estimular o clitóris é, provavelmente, a maneira mais fácil para maioria das pessoas sentirem um orgasmo. Em 2017, um estudo realizado nos Estados Unidos (EUA) com mais de 1000 mulheres, mostrou que duas em cada três pessoas que tinham relações heterossexuais afirmavam precisar de estimulação clitoriana para ter orgasmos durante o sexo ou relatavam que a estimulação clitoriana intensificava os orgasmos mesmo que não fosse necessária para o atingir. (6)

O tipo de estimulação clitoriana preferido entre as mulheres que participaram do estudo era variável, embora muitas tivessem dito que gostavam de estimulação direta e estimulação que envolvesse fazer círculos ou um movimento de cima para baixo.(6)

Dito isto, houve uma grande diversidade de respostas sobre como e de que forma a pessoa gostava que o clitóris fosse estimulado – algumas até disseram que não gostavam de jeito nenhum (6). Os resultados desse estudo são semelhantes aos de outros estudos realizados com mulheres nos EUA no passado (7).

Estimulação Vaginal

Quando o orgasmo ocorre apenas devido à estimulação intencional da vagina, dizemos que é um orgasmo de estimulação vaginal. Apesar de o clitóris e outras partes do corpo poderem ser tocadas acidentalmente no processo, para ter um “orgasmo vaginal” não deveria existir estimulação intencional de outras partes do corpo.

No mesmo estudo descrito acima, menos de 1 em 5 mulheres afirmaram ser capazes de chegar ao orgasmo apenas com estimulação vaginal (6,7).

Alguns pesquisadores propuseram a hipótese de que uma pessoa pode ser capaz de sentir um orgasmo apenas com estimulação vaginal se tiver um ponto G altamente sensível ou fácil de estimular (3,5,8-10). No entanto, o ponto G não é bem conhecido. Há quem defenda que o ponto G é, na verdade, um clitóris retraído ou alargado, ou é um conjunto de terminações nervosas ligadas ao clitóris (5,8-10). Também há quem acredite que o ponto G não existe de todo (3,5). De qualquer forma, não há evidência alguma que um orgasmo proveniente da penetração seja superior a qualquer outro tipo de orgasmo; aliás, a estimulação clitoriana intencional pode fazer com que o orgasmo seja ainda melhor do que se ocorresse o orgasmo apenas com penetração (6,7).

Estimulação de outras partes do corpo

Há menos pesquisa sobre os orgasmos causados pela estimulação de partes do corpo que não os genitais. Uma vez que muitos destes estudos são pequenos e já têm algumas décadas (11), a proporção de indivíduos que reporta estes tipos de orgasmo pode ser não representativa da percentagem que encontraríamos num estudo maior. Dito isto, estes estudos sugerem que não é necessário obrigatório estimular o clitóris ou a vagina para sentir um orgasmo.

Alguns estudos concluíram que as pessoas podem sentir um orgasmo através de estimulação da boca, dos mamilos, das mamas , ânus e pele e volta de uma ferida (11).

A pesquisa entre participantes com lesões graves na medula espinhal e com participantes epilépticos parece indicar que há orgasmos que podem ser induzidos sem incorporação direta dos genitais (11).

Orgasmos fora do sexo

A excitação dos órgãos genitais e até mesmo o próprio orgasmo não são apenas experiências que acontecem durante o sexo.

Orgasmo induzido pelo exercício

O exercício, especialmente o treinamento com pesos, cardio e exercícios com foco no abdome, podem induzir orgasmos (às vezes chamados de “coregasmos” na “ciência popular”) e outros estímulos genitais (3, 12). Isso faz sentido biologicamente já que tanto o exercício quanto o sexo podem estimular os músculos ao redor dos genitais e podem aumentar o fluxo sanguíneo para essa área do corpo (3, 12). Exercício também pode influenciar o nosso humor através de endorfinas e outros neurotransmissores (13), semelhante ao sexo e orgasmo (14).

Orgasmos durante o sono

Muitas pessoas experimentam excitação sexual ou orgasmo durante o sono (11, 12). É difícil dizer o que ou exatamente como isso acontece. Por ser difícil confiar nos sonhos, não é possível dizer se toda a excitação e orgasmos durante o sono são causados por sonhos sexuais (12). Da mesma forma, não há estudos com pessoas que estimulavam seus corpos inconscientemente durante o sono ou se estavam a ser estimuladas pela roupa de cama ou outro objeto. Portanto, não podemos dizer com certeza se os orgasmos durante o sono aconteceram sem estimulação alguma (11,12).

Orgasmos melhores

O objetivo de muitos artigos sobre orgasmos é ajudar as pessoas a aproveitar melhor o orgasmo ou a tentar novas experiências. Apesar existir pouca evidência de que um tipo de estimulação é melhor do que a outra, algumas pesquisas indicam que há fatores que podem melhorar ou mudar o orgasmo. Artigos publicados sugerem que a excitação sexual aumenta com:

  • mais tempo nas preliminares (6,5);

  • a mudança de intensidade do toque, incluindo parar e recomeçar – esta técnica pode adiar o orgasmo e o torna mais prazeroso (6);

  • um parceiro ou parceira com quem se sente uma ligação ou que se conhece bem o seu corpo (6);

  • o toque ou estímulo nos mamilos e no peito (6,15);

  • o experimentar de novas posições ou diferentes tipos de sexo (16)

Uma vida sexual feliz

Apesar da representação dos orgasmos na mídia, das expectativas de nossos parceiros e do nosso próprio interesse pessoal nos fazerem sentir que temos que ter um orgasmo cada vez que fazemos sexo, uma vida sexual feliz não implica necessariamente em ter um orgasmo fora de série cada vez que temos um encontro sexual. Muitas pessoas afirmaram que nem todos os orgasmos são iguais, o que faz sentido – nossas mentes e nossos corpos mudam todos os dias (devido à nossa disposição, saúde e níveis de estresse etc.) e, portanto, não é realista esperar que o mesmo tipo de estimulação se traduza sempre na mesma experiência. O orgasmo é apenas um de muitos elementos na satisfação sexual.

*O Clue preza pela neutralidade de gênero: falamos de menstruação numa perspectiva inclusiva - [leia e saiba mais].

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