Ilustração: Marta Pucci

COVID-19

Como o coronavírus impacta gravidez, amamentação e pós-parto

O que sabemos sobre as consequências para gestantes e mães e familiares com bebês

*Tradução: Jade Augusto Gola

SARS-CoV-2 (o novo coronavírus responsável pela COVID-19) é um vírus novo. Há ainda muito a ser aprendido sobre esse vírus e como ele impacta a gravidez, a amamentação e o pós-parto. Muitas pessoas grávidas, pais e mães estão corretamente preocupadas sobre como o vírus impactará sua saúde e de seus familiares.

Em geral, as consequências do coronavírus criaram uma crise global de saúde pública, pressionando os sistemas de saúde (1, 2). Essa tensão provavelmente impacta a saúde maternal e pediátrica, já que famílias têm que enfrentar o peso de sistemas de saúde sobrecarregados (3). A saúde maternal e infantil é um tópico complexo e relativo a gêneros. Não podemos adereçar todas essas complexidades em um único artigo, então vamos tratar especificamente de como o coronavírus impacta a saúde imediata de pessoas grávidas, em situação de parto, mães e pais e seus neonatos.

Como o coronavírus afeta a gravidez?

A gravidez causa mudanças no sistema imunológico (4). A Organização Mundial de Saúde (OMS) e outras autoridades nacionais como o Colégio Real de Obstetras e Ginecologistas (RCOG) afirmam que a gravidez não coloca uma pessoa em alto risco de doenças graves relacionadas à COVID-19, em comparação com a população em geral (5, 6). A maioria das pessoas grávidas com COVID-19 terão sintomas moderados como de uma gripe ou resfriado (6).

Tanto a OMS quanto o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) concordam que gestantes agora estão sob maior risco de doenças do sistema respiratório como a influenza (5, 7). A ACOG afirmou categoricamente que considera as pessoas grávidas de alto risco para o vírus (7).

Ainda não há dados suficientes para analisar como o coronavírus pode prejudicar um feto.

Algumas gestantes com COVID-19 tiveram partos prematuros (8), significando que os bebês nasceram antes de 37 semanas de gestação (9). Não está claro se esses partos prematuros são diretamente relacionados à COVID-19 (8). Há dados limitados sobre COVID-19 e sua transmissão a um feto durante o trabalho de parto e nascimento (5-7).

Uma maneira problemática como esta pandemia pode impactar a gravidez é no aumento de violência doméstica. Algumas pesquisas sugerem que os períodos de gravidez e pós-parto por si só já aumentam o risco de violência doméstica (10). A quarentena pode colocar muita gente mais tempo ao redor de seus abusadores, criando uma situação duplamente perigosa.

A violência doméstica no período da gravidez é associada a menor peso do neonato, parto prematuro, depressão pós-parto, problemas de amamentação e, naturalmente, o risco de violência física (10). Se você está presa em uma situação de violência doméstica, veja no fim deste artigo fontes de apoio e denúncia.

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Como o coronavírus impacta o nascimento e a saúde de recém-nascidos?

Por ser tão novo em humanos, há poucos estudos ainda sobre como o coronavírus impacta a saúde de bebês nascidos de alguém que tenha COVID-19. Alguns estudos trazem perspectivas sobre como o vírus impacta recém-nascidos, mas os dados ainda não são conclusivos. Baseado na porcentagem de pessoas que foram diagnosticadas com COVID-19, esses estudos nos dão apenas uma pequena fração das consequências em potencial, incluindo resultados positivos. Mais pesquisas científicas se fazem necessárias. Alguns desses estudos têm falhas que os tornam imperfeitos, mas esta é parte da natureza de tentar resolver um novo problema científico (11).

Isso é o que sabemos até agora sobre cada estudo:

  • Estudos não encontraram evidência do vírus no líquido amniótico, no sangue do cordão umbilical ou no leite materno (8, 12).

  • Alguns casos relataram neonatos com sintomas do vírus mas que testaram negativo. Exames de sangue revelaram anticorpos do coronavírus, o que significa que eles foram expostos ao vírus durante a gravidez (13, 14).

  • Um estudo com 33 mães diagnosticadas com COVID-19 revelou que três dos recém-nascidos testaram positivo para COVID-19 após o parto mas logo se recuperaram (15).

  • Um estudo com quatro bebês que nasceram de mães com COVID-19 revelou que eles nasceram no tempo regular e com o peso médio (16).

  • Outro estudo com dez bebês que nasceram de dez mães com COVID-19 revelou que quatro nasceram no tempo regular e seis foram prematuros. Muitos tinham sintomas. Cinco desses neonatos foram considerados "curados", enquanto quatro ficaram hospitalizados com quadros estáveis e um morreu (8).

O coronavírus pode ser transmitido de mãe para bebê?

Alguns estudos clínicos iniciais em Wuhan, China, observaram o que se chama de transmissão vertical, ou seja, se o coronavírus passou da gestante ao bebê (8, 13-16). A transmissão vertical pode ocorrer em algumas (mas não todas) infecções virais através da placenta na gravidez, pela vagina durante o parto, ou pelo leito materno durante a lactação.

Enquanto estudos iniciais sugerem ser possível a transmissão de coronavírus de gestante para bebê, esses estudos não encontraram evidência do vírus no fluido amniótico, no sangue umbilical ou no leite materno (8, 12).

Um estudo chinês observou 33 bebês nascidos de gestantes com diagnóstico de COVID-19. Três desses infantes testaram positivo para COVID-19 após o nascimento. Três dos bebês tiveram sintomas e um tinha uma condição mais grave chamada síndrome da angústia respiratória do recém-nascido. Esse bebê nasceu prematuro, o que pode ter causado uma severidade da condição. Acredita-se que os três bebês recuperaram-se do vírus (15).

Um estudo analisou sangue, secreções nasais e vaginais e leite materno de uma mãe com COVID-19. A secreção vaginal e o leite materno deram negativo para coronavírus. O bebê não teve nenhum sintoma do vírus. O sangue do bebê mostrou anticorpos de coronavírus, o que significa que foi exposto ao vírus durante a gravidez, embora os testes para COVID-19 tenham dado negativo (13).

Em um estudo com seis mulheres grávidas e com COVID-19, todos bebês nasceram com anticorpos de coronavírus, indicando que foram expostos ao vírus durante a gravidez. Nenhum dos bebês mostrou sintomas de COVID-19 e todos os testes deram negativo. O estudo não relatou mais sobre o desenvolvimento dos neonatos (14).

Outro estudo de caso com quatro bebês nascidos de mães diagnosticadas com COVID-19 ilustrou que todos nasceram no tempo regular e com peso médio. Uma das famílias não deu permissão para testes, mas os outros três bebês testaram negativo para o vírus e não tiveram nenhum sintoma sério relativo a COVID-19. Os quatro bebês estavam saudáveis, foram alimentados e tiveram alta (16).

Um estudo com outras dez crianças nascidas de mães com COVID-19 reportou que quatro nasceram no tempo regular e seis prematuramente. (Todas as mães testaram positivo para o vírus, exceto por uma que apenas teve os sintomas). Seis desses bebês tiveram sintomas. Cinco dos infantes foram considerados "curados", enquanto quatro estiveram em condição estável no hospital, e um morreu. Estas são notícias alarmantes, mas é válido notar que os pesquisadores não insistiram que a COVID-19 causou a morte do bebê. O bebê nasceu prematuro de 34 semanas, o que pode ser atribuído ao mau resultado. Embora esses bebês demonstraram sinais e sintomas de COVID-19, seus testes deram negativo (8).

O diagnóstico de COVID-19 muda os planos de uma gravidez?

Muitas pessoas gestantes estão ansiosas sobre como o coronavírus e a COVID-19 impactarão seu planejamento familiar. Eis o que sabemos até agora:

O coronavírus impacta o parto?

Não há evidência atualmente de que o tipo de parto (vaginal ou cesárea) poderia proteger o neonato, ou colocá-lo em risco (16). No momento, a escolha de parto vaginal ou cesárea deve ser baseada individualmente nas necessidades de gestantes e das crianças (5, 16). Na maioria dos casos, planos para o parto não precisam mudar, mesmo com um diagnóstico de COVID-19 (17).

É mais seguro dar à luz em casa devido ao coronavírus?

Algumas gestantes já demonstraram desejo de dar à luz fora de hospitais para evitar possíveis contatos com o vírus. O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas e a Sociedade de Medicina Maternal e Fetal insistem que o melhor lugar para dar à luz ainda é em um hospital, num centro especializado em obstetrícia ou outros tipos de hospitais credenciados (5, 18).

Uma consideração importante ao escolher o parto caseiro é que, numa situação de emergência, pode ser mais difícil acessar uma ambulância ou realizar transferências rápidas a um hospital devido à falta de recursos devido a crise do Coronavírus (6).

Os hospitais limitarão visitas a gestantes por causa do coronavírus?

No momento, alguns hospitais limitaram a quantidade de visitantes que uma pessoa pode ter durante o parto, inclusive doulas e parceiros(as). Essa política contradiz a Organização Mundial da Saúde (OMS), que sugere que todas as pessoas têm o direito de ter companhias de sua escolha durante a gestação e o parto (5). Pergunte a seus provedores de saúde sobre opções de visita em seu local de parto. Você pode ainda necessitar de um plano extra de apoio que envolva doulas ou pessoas queridas através de vídeo.

Políticas hospitalares durante esta pandemia são imperfeitas mas estão evoluindo.

Ao escolher o parto junto de doulas ou de outros apoios de gestação, profissionais de enfermagem treinados devem estar presentes para que você tenha apoio emocional e físico (18). Estudos científicos indicam que receber apoio de diversos tipos durante o parto, mesmo que seja de desconhecidos que trabalham num hospital, é um tipo de atitude que leva a melhores resultados de parto (20).

Como um diagnóstico de COVID-19 impacta a fase do pós-parto?

Se você teve um diagnóstico de COVID-19, é provável que os provedores de saúde que te atenderam tenham um plano sobre como você pode interagir com o bebê depois do nascimento. Mesmo que você não tenha apresentado sintomas e não tenha se sentido doente, é de se esperar que essa pandemia atual deve impactar sua experiência pós-parto.

Um diagnóstico de COVID-19 impacta a amamentação e lactação?

Já que não há evidência de que o vírus pode estar no leite materno (21), os benefícios da amamentação compensam qualquer risco em potencial (5, 22). Converse sobre esses benefícios com seu(ua) médico(a) (17). A Liga Internacional do Leite (23) encoraja as pessoas diagnosticadas com COVID-19 a amamentarem. Pessoas lactantes com coronavírus produzem anticorpos específicos chamados IgA que, acredita-se, protegem os neonatos da infecção (23).

Quando a pessoa está muito doente e não pode amamentar, fornecer leite manualmente ou com uma bomba é possível. Alguma outra pessoa adulta precisará oferecer suporte físico à mãe durante a lactação do bebê, dando o leite ao neonato e desinfetando todos equipamentos e superfícies duras (19). Tanto ao amamentar o bebê manualmente ou com a bomba, a transmissão através de gotículas pode ser prevenida ao lavar-se as mãos antes e depois de tocar o bebê, com a limpeza de superfícies e com o uso de máscaras higiênicas (5).

As mães com COVID-19 podem compartilhar o quarto com bebês?

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) recomenda atualmente que a decisão de separar alguém de sua criança deve ser feita caso a caso, levando em consideração as preferências da gestante e família (22). A OMG recomenda contato e toque em recém-nascidos para encorajar a amamentação, o que pode fazer o bebê perseverar (5).

Em alguns países, as pessoas confirmadas com coronavírus foram advertidas a se separarem de seus bebês por duas semanas. Essa separação é longa e pode ter efeitos negativos na lactação e na formação de vínculos afetivos. Se o distanciamento lhe for recomendado, discuta riscos e benefícios específicos para sua família e bebê e pergunte sobre alternativas (6).

A época da gravidez e nascimento já é vulnerável o suficiente para muita gente. Quando não há uma pandemia, a depressão durante a gravidez e pós-parto já afeta cerca de uma em cinco pessoas (24). Eventos estresses, como a vida durante o coronavírus, podem aumentar o risco de depressão pós-parto (24) e de outros transtornos como ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo pós-parto e/ou transtorno de estresse pós-traumático (25).

O Apoio Internacional ao Pós-Parto (PSI), uma organização criada para promover a saúde mental de mães e familiares, está registrando um pico de pedidos de apoio de saúde mental e outros serviços durante essa pandemia (26). Isso não surpreende, considerando como muitas mães e familiares podem sentir-se isolados durante essa quarentena, e a falta de apoio social é um fator de risco para depressão pós-parto (27). Também é possível que algumas pessoas com recém-nascidos recebam maior apoio de seus(uas) parceiros(as) durante essa quarentena e ao longo da crise do coronavírus.

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Como atravessar a crise do coronavírus durante a gravidez ou pós-parto

Essa pandemia é sem dúvida um tempo estressante para gestantes, mães e familiares de um recém-nascido. Preparar bem e adicionar flexibilidade a seus planos podem te ajudar neste momento.

Durante a gravidez, algumas consultas obstetrícias podem ser realizadas por telefone ou vídeo. Pode ser útil para aliviar a ansiedade ter um plano de pós-parto antes do nascimento. Peça a amigos e familiares para falarem com você todo dia por telefone ou vídeo. Peça também a pessoas de confiança para enviarem compras e produtos para bebês uma vez por semana, durante as seis primeiras semanas. Obstetras e parteiras podem te indicar para consultores sobre lactação ou doulas, ou buscar por esse serviços em sua região.

Se você está gestando ou está no pós-parto e teve o diagnóstico de COVID-19, veja com provedores de saúde a melhor maneira de enfrentar os sintomas da doença e a fazer o melhor plano para você e sua família.

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Leia agora nossos artigos sobre como o coronavírus pode impactar seu ciclo menstrual e o acesso a anticoncepcionais. Aproveite para saber o básico sobre seu ciclo, sobre sinais iniciais de uma gravidez e também sobre contraceptivos.

Se você está sofrendo com violência doméstica:

Por favor contate algum dos serviços abaixo para informação e proteção.

BRASIL

  • Polícia Militar - Telefone 190

  • Central de Atendimento à Mulher - Telefone 180

  • Delegacias da Mulher (consulte o mapa nacional feito pelo portal AzMina)

  • Direitos Humanos app (baixe aqui)

PORTUGAL

  • Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV - Telefone 21 358 7900)

  • União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR - Telefone 218 873 005)

  • Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género - Telefone 800 202 148 / violencia.covid@cig.gov.pt

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