Ilustração de um coronavírus representado em um ciclo menstrual

Ilustração: Marta Pucci

COVID-19

O coronavírus (COVID-19) afeta a menstruação e a saúde do ciclo?

Fatos, serviços e dicas de base científica.

*Tradução: Jade Augusto Gola

Desde o começo de 2020 a pandemia do coronavírus (COVID-19) está impactando decisões pessoais e de saúde das pessoas por todo o mundo. Enquanto a maioria das pessoas teve que mudar suas rotinas, mulheres e pessoas que menstruam sabem que os ciclos menstruais não pararam por causa da pandemia.

Você deve ter ouvido que a COVID-19 e o estresse causado pela pandemia podem ter efeito na previsibilidade dos ciclos; talvez você tenha percebido isso em seu próprio corpo. Se você notou mudanças no seu ciclo menstrual recentemente, talvez a pandemia tenha a ver com isso.

Vamos analisar agora como a COVID-19 está impactando a saúde feminina e menstrual.

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O estresse da pandemia pode impactar a minha menstruação?

Temos lido na Internet diversos relatos de como o estresse da pandemia se expressa, para muita gente, em mudanças nos ciclos menstruais. Você não precisa ter uma infecção de COVID-19 para notar alterações em seus comportamentos menstruais. Viver durante uma pandemia já é uma experiência estressante o suficiente. E o estresse, sabemos, pode ter influência sobre duração dos ciclos, padrões de sangramentos vaginais, menstruações dolorosas e sintomas pré-menstruais (1).

Todo o estresse físico, mental e financeiro de ter que lidar com as mudanças desses últimos tempos atingiu desproporcionalmente as mulheres e pessoas com ciclos. Embora os homens tenham maior chance de morrerem de complicações de COVID-19 do que as mulheres (2), a pandemia revelou disparidades de gênero nos sistemas de saúde e de assistência social. Pessoas trans e não binárias também são particularmente impactadas pela pandemia e são, deste modo, mais vulneráveis à COVID-19 (3).

Impactos da pandemia nas condições de trabalho foram mais significativas para as mulheres: desemprego, falta de assistência infantojuvenil, aulas virtuais e potencial exposição à COVID-19 no trabalho. Segundo o censo dos EUA, 73% dos trabalhadores de saúde identificam-se como mulheres (4), índice similar à média histórica de 70% no Brasil (12). Grupos como profissionais domésticos e cuidadores informais são majoritariamente compostos de pessoas não brancas, imigrantes — e mulheres (5). Essas categorias incluem enfermeiras, faxineiras e cuidadoras de idosos, profissionais que continuaram trabalhando ao longo da pandemia. E antes da crise do coronavírus, muitos dessas profissionais já trabalhavam sob condições precárias, como horas excessivas e sem convênio de saúde. As perdas de emprego devido à pandemia vêm impactando mais as mulheres que os homens, com 11% das mulheres declarando desemprego nos EUA, contra 4% dos homens (6). Desemprego e subemprego significam a perda de benefícios como seguro de saúde e, portanto, dificuldade para acessar atendimento de saúde. Mulheres não brancas e imigrantes têm risco extra de não terem seguro (5).

Mesmo com seguro de saúde, acesso aos sistemas e a atendimento na maioria dos países têm sido limitado. Gestantes sofrem ainda mais estresse durante a pandemia, já que uma gravidez traz maiores riscos de sintomas graves de COVID-19 (7) e as restrições de visitas para evitar contágios aumentam o estresse desta fase (8). Cerca de um terço das mulheres nos EUA reportaram limitações no acesso a serviços de saúde reprodutiva, o que inclui ter em mãos anticoncepcionais. Entre pessoas negras, não brancas, latinas, LGBTQIA e de baixa renda, é maior a fatia de pessoas que sofrem dificuldades para atendimento de saúde (9). Acesso ao aborto legal também viu restrições durante esta pandemia (9). A violência doméstica e baseada em gênero aumentou no último ano (9).

Em resumo: mulheres e pessoas com ciclo estão lidando com muito estresse neste difícil momento. Além do esforço para lidar com as mudanças em casa e no trabalho, há as preocupações diárias sobre não se infectar ou ver entes queridos doentes ou mortos pelo vírus.

Se você está sofrendo de ansiedade e com as incertezas, saiba que tais sentimentos são válidos e bastante normais.

Uma infecção de COVID-19 pode afetar minha menstruação?

Uma pessoa que contrai a COVID-19 pode notar mudanças significativas em seu ciclo menstrual. Até agora, pesquisadores ainda não sabem precisar de que maneira o vírus impacta nossos ciclos, mas uma teoria é de que o estresse que uma infecção dessas traz para o dia a dia faz com que o corpo altere padrões menstruais. Um estudo de 2020 avaliou padrões menstruais de pessoas com COVID-19 e encontrou mudanças significativas. Na análise, a maioria das pessoas não relatou diferenças no volume da menstruação, mas 20% de participantes percebeu diminuição no sangramento (10). Pessoas com casos severos de COVID-19 eram mais propensas a ter menstruações mais longas: ciclos com mais de 28 dias (10).

Em contrapartida, o momento em que você está no ciclo menstrual impacta os sintomas de uma infecção viral por coronavírus. Exacerbações e condições como asma e enxaquecas são comuns na fase lútea do ciclo (11). Pesquisadores acreditam que níveis flutuantes do hormônio estrogênio podem influenciar algumas células de defesa do corpo, levando a pioras de sintomas de doenças e condições (11). Essa mesma dinâmica hormonal pode intensificar os sintomas de COVID-19.

É provável que uma infecção de COVID-19 pode influenciar sua menstruação, do mesmo modo que o seu ciclo menstrual pode ter influência nos sintomas dessa doença. Também é possível sofrer o estresse da pandemia ou uma infecção confirmada e nenhuma mudança ocorrer em seu ciclo. A pesquisa sobre como esse vírus e os ciclos interagem ainda é muito incipiente, e mais estudos se fazem necessários.

Como saber se o estresse da pandemia ou a COVID-19 estão influenciado meu ciclo?

Você pode monitorar em seu Clue app quaisquer mudanças em seu ciclo, incluindo dores, volume do fluxo e duração da menstruação. Também é útil monitorar alguns sintomas que podem ter correspondência com uma infecção de COVID-19, como energia, sono, temperatura, digestão e fezes. Monitorar te ajuda a notar mudanças nos padrões menstruais e em que momentos ao longo do ciclo sintomas são observados. Com essas informações em mãos, você pode decidir que é hora de uma visita médica, ou pode mostrar o app para sua médica e conversar sobre suspeitas e alterações.

Se você busca apoio e informação, saiba que nosso time está aqui para ti. Monitore com regularidade e fale sempre conosco via Twitter e Instagram (em português!).

Artigo originalmente publicado em 20 de março de 2020.

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