Ilustração: Marta Pucci e Benedikt Scheckenbach

Igualdade de gênero

Vamos perder a "virgindade", de uma vez por todas

por Jennifer Neal, Former Content and Social Media Manager at Clue
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*Tradução: Mariana Rezende

Quando era caloura na faculdade, conversei com vários dos meus colegas de dormitório sobre como era possível definir o que é uma “virgem”. Todos que sobreviveram à puberdade tiveram esse debate e, às vezes, ainda me pego ruminando sobre isso mesmo depois de tantos anos. Uma amiga minha afirmou que qualquer atividade que envolva a palavra "sexo" (ou seja, sexo oral, sexo anal) já exclui uma pessoa de poder reivindicar o título de virgem, enquanto um amigo meu foi rápido em distinguir entre "virgindade técnica" e "virgindade psicológica", acrescentando todo um outro nível de complexidade a um assunto que já era bastante confuso.

Já se passaram mais de dez anos desde essa conversa e até hoje não sei a resposta para a pergunta. Para falar a verdade, ninguém mais parece saber, mas a virgindade ainda é um fenômeno cultural tão significativo que continua a ganhar destaque de uma forma ou de outra.

Podemos estar em 2019, mas ainda vivemos em um mundo onde algumas mulheres vendem sua virgindade por milhões de dólares em leilões online. Na África do Sul, algumas jovens são premiadas com “bolsas de virgindade” para entrar na universidade, sob a condição de serem submetidas a testes anuais de virgindade. Afirma-se, inclusive, que é uma iniciativa para restringir a gravidez indesejada e a transmissão de DSTs, embora o mesmo esquema não tenha sido oferecido estudantes do sexo masculino. Na Índia, o Dr. Indrajit Khandekar está lutando para remover o teste de virgindade de “dois dedos” do currículo médico do Instituto Mahatma Gandhi de Ciências Médicas na Sewagram, uma faculdade de medicina em uma zona rural da Índia, com base em que é uma técnica – advinha! – não científica.

Na temporada mais recente do “The Bachelor” nos EUA, Colton Underwood está explorando sua virgindade para encontrar o amor verdadeiro na plataforma de namoro mais romântica do mundo: um reality show.

E, como nova gerente de conteúdo e redes sociais do Clue, também recebi dezenas de mensagens de jovens perguntando se usar um coletor menstrual ou praticar certos atos sexuais pode afetar a virgindade.

A virgindade é claramente uma ideia extremamente poderosa em muitas culturas. Por todas estas razões, penso que é importante questionar o conceito de virgindade em si.

De onde vem essa ideia, afinal?

A origem do conceito de virgindade é objeto de debate, mas está claro que a virgindade feminina tem sido valorizada em culturas e regiões há milhares de anos. Alguns dizem que vem da Grécia Antiga, onde meninas virgens deveriam ter mamilos pequenos, rosados, virados para cima, e meninas sexualmente experientes deveriam ter mamilos escuros, grandes e virados para baixo. Isso exclui a maioria dos mamilos do mundo, mas tudo bem, estamos falando da Grécia Antiga.

A Idade Média oferecia diferentes indicações de virgindade. No texto medieval De secretis mulierum, ou “Os segredos das mulheres”, algumas das indicações mais amplamente aceitas de virgindade eram: “vergonha, modéstia, medo, um caminhar e falar impecáveis, baixando os olhos diante dos homens e dos atos dos homens”.

Caso você ache que qualquer mulher inteligente poderia resistir à detecção fingindo essas características, pense novamente, porque um homem poderia simplesmente examinar sua urina. Acreditava-se que a urina virginal era clara, límpida, às vezes branca (talvez não tivessem infecções por fungos na Idade Média), às vezes até "cristalina", enquanto "mulheres corrompidas têm urina turva".

Quaisquer que sejam suas origens, os testes de virgindade evoluíram e se tornaram um fenômeno global por razões que não são totalmente compreendidas e que ainda acontecem nos dias de hoje. O festival Royal Reed Dance – ou Umkhosi woMhlanga em Zulu – é uma tradição anual em partes da África do Sul e Suazilândia, onde as jovens declaram sua virgindade perante o rei e participam de testes de virgindade onde a rigidez ou integridade do hímen é examinada. E, há relativamente pouco tempo, em 2003 o ex-membro do parlamento jamaicano Ernie Smith propôs testes de virgindade para todas as meninas em idade escolar na Jamaica, para combater a gravidez não planejada, porque a educação sexual abrangente era muito irrealista, penso eu.

A problemática do hímen

O hímen é uma membrana fina e carnuda localizada na abertura da vagina. Historicamente, as culturas usaram a integridade do hímen como forma de indicar a virgindade. Mas há uma série de problemas com o uso do hímen para saber se uma pessoa fez sexo.

Para algumas pessoas, a membrana é tão pequena que praticamente não existe. Raramente a membrana himenal cobre toda a abertura vaginal. E muitas vezes, a membrana se rompe por conta própria durante a infância, como no caso de banhos, caminhadas, atividades esportivas, auto-exploração ou masturbação. Portanto, usar o hímen para estabelecer quem é e quem não é sexualmente experiente não é rigoroso/concreto/determinante.

E, no entanto, "hímen" se tornou uma palavra carregada de várias ideias sobre virtude e moralidade. É por isso que um grupo de direitos sexuais chamado Associação Sueca para a Educação em Sexualidade (RFSU) cunhou o termo "coroa vaginal", afirmando que a palavra hímen foi "retratada como a fronteira entre a culpa e a inocência".

É por isso que precisamos fazer essa pergunta: como identificamos uma pessoa que é virgem? A resposta é, não é possível. Mas o que é possível e que infelizmente fazemos é representar a virgindade. Usamos vestidos brancos em casamentos. Envolvemo-nos em uma análise competitiva, muito parecida com o debate que eu tive na faculdade, para determinar quem pode reivindicar um título que, citando Hanne Blank, autora do livro Virgin: The Untouched History, “não serve imperativo biológico, e não concede nenhuma vantagem evolutiva comprovada” – como reprodução ou sobrevivência – a menos que o policiamento da sexualidade feminina se qualifique. Criamos e participamos ativamente de hierarquias estruturais em que as mulheres são puras ou sujas, o que simplifica demais a sexualidade feminina e deixa de incluir um espectro de comportamento que existe entre esse binário machista e prejudicial.

Atribuímos comportamentos à virgindade para que uma mulher possa “se comportar” de uma maneira que se alinhe com nossas noções preconcebidas sobre o que a virgindade deveria ser. Assistimos a bailes de pureza como adolescentes e juramos promessas junguianas de abstinência a nossos pais até que tenhamos idade suficiente para jurar promessas de fidelidade aos nossos maridos. Submetemo-nos a cirurgias dolorosas de reconstrução do hímen, conhecidas como himenoplastia, para manter essa representação, mesmo que isso signifique gastar muito dinheiro e nos expor a complicações como estenose vaginal, perfuração intestinal e infecções.

O problema disso é que representamos a virgindade de uma forma que prejudica as mulheres em vez de libertá-las.

Ao representar a virgindade, atribuímos um valor indeterminado a algo que não pode ser quantificado, medido ou comprovado. A virgindade molda o valor de uma mulher como inversamente proporcional à quantidade de sexo que ela faz e isso sustenta o patriarcado.

E a virgindade masculina?

Como não há ideias amplamente difundidas sobre um teste decisivo para identificar virgens do sexo masculino, a virgindade masculina não é mantida no mesmo padrão de escrutínio que a virgindade feminina. Enquanto as mulheres são punidas por sua sexualidade, os homens são aplaudidos. A ironia aqui é que, dentro de um contexto heteronormativo, um homem só pode perder sua virgindade se uma mulher desistir da sua própria. Mas mesmo que não exista uma maneira física de identificar um homem virgem, os homens ainda vivenciam o estigma.

De acordo com um estudo, existe até um sistema de pensamento, chamado de enquadramento do estigma (stigma framework, em inglês), que se aplica a pessoas que têm vergonha de sua virgindade e tentam escondê-la, algo que é mais comum em pessoas que se identificam como masculinas do que femininas. Embora não exista um "hímen" masculino, a vergonha costuma ser um fator para homens que ainda não fizeram sexo, porque seu conceito de masculinidade está ligado à experiência sexual. Em segundo lugar, a masculinidade pode ser interpretada como algo que as mulheres dão ou tiram, seja dando ou negando ao sexo masculino. E isso pode inclusive ser a razão subjacente e aterradora de homens como Elliot Rodger, Alek Minassian e outros INCELs (“involuntariamente celibatários”) violentos consideram o assassinato em massa uma resposta apropriada ao sexo negado pelas mulheres.

A virgindade prejudica as pessoas de muitas maneiras, mas as mulheres vivenciam uma quantidade desproporcional de violência que ocorre como resultado do estigma da virgindade masculina, além do trabalho psicológico, físico e emocional do dia-a-dia na representação da virgindade.

A “virgindade” faz com que o sexo pareça ser feito somente pessoas cis hétero (e não deveria)

A virgindade perpetua uma ideia de que o único sexo que "conta" é quando um pênis entra em uma vagina. Isso exclui casais do mesmo sexo, não binários e transgêneros. O sexo pode ser entre duas pessoas ou entre várias pessoas. Às vezes o sexo envolve dois pênis; às vezes envolve duas vaginas. Às vezes envolve dedos, bocas ou ânus. A virgindade classifica certos atos sexuais como mais legítimos do que outros, o que eleva a orientação heterossexual como sendo mais legítima do que outras.

A virgindade já é um conceito prejudicial para homens e mulheres que não são transgêneros. Para as pessoas trans, pode ser ainda mais prejudicial, porque atribui papéis masculinos e femininos baseados na biologia, o que é diferente do gênero.

Também estabelece um exemplo perigoso para os jovens que estão experimentando sua sexualidade pela primeira vez, criando uma falsa sensação de segurança em termos dos perigos potenciais que envolvem certos atos sexuais em detrimento de outros. Sim, você ainda pode pegar uma IST fazendo sexo oral ou anal. Qualquer forma de sexo que coloque alguém em risco de contrair gonorreia ou HIV é real o bastante, então falar sobre isso em termos de relações sexuais com PnV (pênis-na-vagina) é uma abordagem enganosa.

O que estamos "perdendo" exatamente?

A linguagem que usamos para descrever nossas experiências atribui significado a elas. É por isso que podemos optar por dizer "fazer amor" ou "transar" sobre um determinado momento de intimidade. O ato é fisiologicamente o mesmo, mas o sentimento por trás disso pode ser completamente diferente.

Então, quando digo que "perdi" minha virgindade, estou sugerindo que perdi uma parte de mim mesma pelo qual vou fazer o luto. Parece que estou dizendo que é algo a ser desperdiçado, uma ausência de algo que faz com que a pessoa seja menos completa. O sexo em um ambiente seguro e acolhedor certamente não se encaixa nessa descrição. De fato, perder um sexo consensual e mutuamente satisfatório seria algo digno de luto. Eu não lamento uma membrana completamente irrelevante que provavelmente rasgou durante o treino de futebol na terceira série. "Perda" não descreve exatamente como me senti quando fiz sexo pela primeira vez. Eu descreveria minha “virgindade” como algo que eu alegremente joguei pela janela de um trem desgovernado no caminho para a Disney World (o lugar mais feliz do mundo)... porque foi um momento incrível.

Além disso, posso pensar em muitas coisas piores do que não ser virgem na minha hipotética noite de núpcias... como estar condenada a uma vida inteira de sexo ruim com alguém de quem eu vou ganhar rancor porque simplesmente não temos química.

E isso ninguém merece.

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